19 abril, 2017

Surto de Hepatite A

Prática do sexo anal e em especial do sexo oro-anal multiplicam as chances de os gays contraírem a doença. A prevenção é simples: vacine-se

Essa semana começa a campanha de vacinação contra a gripe no Brasil. Nessa época do ano os idosos, crianças, gestantes e portadores de doenças crônicas já sabem bem que devem se vacinar para evitar problemas com essa doença. E os gays, precisam na vida se preocupar com alguma vacina para se manterem com saúde? Sim, e aqui vou falar de como algumas pessoas estão perdendo oportunidades de evitar doenças quando deixam de se vacinar.

Quando falamos de prevenção de doenças para a população gay o assunto é quase sempre monotemático e focado no HIV, que de fato acomete esse grupo de maneira desproporcional desde o início da epidemia. Somente nos últimos anos que a sífilis voltou ao topo da lista de preocupações devido à explosão no número de casos registrados no país. Acontece que não dispomos (ainda) de vacinas eficazes para prevenção nem do HIV nem da sífilis, restando ao discurso da prevenção a recomendação do uso da camisinha, PEP, PrEP, testagem de rotina, e diagnóstico e tratamento precoces. Enquanto isso, outras doenças sexualmente transmissíveis, que podem ser evitadas com vacinação, como as Hepatites A e B, são esquecidas por muita gente.

A Hepatite A é uma doença causada por um vírus que é eliminado pelas fezes de uma pessoa enquanto ela está doente. Normalmente a transmissão para pessoas susceptíveis acontece através da ingestão de alimentos contaminados com o vírus, como por exemplo frutos do mar pescados de lugar que recebe esgoto não tratado de uma cidade, ou verduras regadas com água contaminada. Entretanto, no contexto da prática do sexo anal e em especial do sexo oro-anal (o popular “cunete”) as chances de ocorrer a transmissão sexual da hepatite A se multiplicam. A hepatite B, por sua vez, é causada por outro vírus, e se transmite na maioria das vezes entre adultos de maneira semelhante ao HIV, ou seja, por sexo desprotegido.

Tanto a Hepatite A quanto a B são doenças que se resolvem espontaneamente na maioria das vezes que infectam adultos, mas até que se chegue a essa cura, podem provocar inflamação grave no fígado do paciente, que pode precisar ser internado, e ser afastado por vários dias das suas atividades de vida. Em alguns casos essa inflamação é tão intensa que o indivíduo precisa ser submetido ao transplante de fígado para não morrer.

No caso da Hepatite B especificamente, algumas pessoas podem não ser capazes de se curar da doença e precisam durante toda a vida tomar medicamentos para controlar a multiplicação do vírus no fígado e evitar a ocorrência de complicações como cirrose e câncer hepáticos.

Quando uma pessoa é vacinada para a Hepatite A ou B ela se torna protegida dessas infecções pelo resto da vida. Da mesma maneira, pessoas que já tiveram a doença também se tornam protegidas com uma imunidade natural. Muitas vezes isso acontece de maneira assintomática ou com sintomas leves que não chegam a levar o indivíduo a procurar atendimento médico.

Os gays, portanto, já eram conhecidos como um grupo vulnerável a essas duas doenças, mas desde julho de 2016 diversos países europeus, como o Reino Unido, Holanda e Alemanha, passaram a relatar um surto de casos de Hepatite A entre gays, havendo inclusive o relato de associação de parte desses casos ao EuroPride, evento LGBT que reuniu centenas de milhares de pessoas em Amsterdam no ano passado. Todos os casos ocorreram em pessoas que não tinham vacinação completa.

No Brasil, o laboratório Fleury atendeu, nos últimos 20 dias, 23 homens em idade sexualmente ativa cujos resultados de exames foram compatíveis com hepatite A. Embora os dados clínicos e fatores de risco relacionados a esses casos não estejam disponíveis, o número chama atenção por ser bem superior ao que habitualmente é registrado no laboratório. O mesmo aumento não foi verificado entre mulheres da mesma faixa etária, o que seria esperado caso estivesse ocorrendo um surto com origem em contaminação alimentar.

Médicos infectologistas que trabalham em hospitais também perceberam o aumento recente do número de casos de Hepatite A em homens gays. Somente no Hospital 9 de Julho, da capital paulista, desde o carnaval 6 casos foram internados com a doença, todos eles entre homens gays, e outros hospitais relataram casos semelhantes no período. As autoridades sanitárias já foram comunicadas para investigação.

A situação da Hepatite B no país é melhor pois a vacina já é aplicada gratuitamente pelo SUS. Dessa maneira, o número de pessoas susceptíveis à doença está diminuindo, e conforme a cobertura vacinal for aumentando, os casos novos de Hepatite B tendem a desaparecer. Já para a Hepatite A, a população geral não recebe a vacina pela rede pública e assim temos ainda um grande número de susceptíveis no país.

Não sabemos ainda se no Brasil um surto de Hepatite A semelhante ao europeu está se iniciando, mas, independente disso, desde já uma recomendação que pode ser dada para homens gays com vida sexual ativa é que, caso não tenham ainda sido vacinados para Hepatites A e B, procurem um médico para que seja avaliada a indicação ou não de vacinação.

Imaginem um mundo em que existiam vacinas eficazes contra HIV e sífilis, mas mesmo assim havia pessoas vulneráveis que simplesmente optavam por não se vacinar e continuavam se infectando. É exatamente isso que acontece com as Hepatites A e B no Brasil.

Seja esperto e mantenha sua prevenção contra todas as DSTs sempre atualizada.


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Ricardo Vasconcelos – currículo completo e contatos aqui –, formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), é infectologista do Hospital das Clínicas e trabalha no projeto PrEP Brasil, que você pode conhecer melhor clicando aqui.


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Parte 2: A verdade: portador do vírus do HIV indetectável não transmite o vírus

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Parte 5: Dúvidas dos leitores: do sexo oral a efeitos colaterais dos remédios contra o HIV

Parte 6: As novidades do tratamento e por que um homem com HIV pode ter filho sem transmitir o vírus