29 maio, 2017

Missão Cumprida. E agora, qual o próximo passo?

A PrEP, mais conhecida como Truvada – que evita que se pegue o HIV – é lançada hoje oficialmente no País. Longe de decretar o fim da camisinha, é uma nova estratégia de prevenção e deve ser comemorada. Agora precisamos (novamente) combater o preconceito

O ano de 2017 tem sido de muitas boas notícias no enfrentamento da epidemia de HIV no Brasil. Em janeiro, passamos a utilizar o Dolutegravir no esquema antirretroviral inicial das pessoas que vivem com HIV. E na semana passada o Ministério da Saúde anunciou que enfim será lançado hoje, dia 29 de maio, o programa de implantação da PrEP, Profilaxia Pré-Exposição, no sistema público de saúde brasileiro.

Só que isso não indica que a maratona terminou. Veja por quê.

O anúncio deve ser motivo de alegria pois coloca mais uma vez o Brasil alinhado com o que há de mais moderno e recomendado pela Organização da Saúde no campo das estratégias de controle da epidemia. E é fruto de um longo trabalho desenvolvido por diversas instituições e pesquisadores brasileiros para avaliar como seria essa incorporação.

Nesse sentido, o Projeto Demonstrativo PrEP Brasil, ao oferecer PrEP e acompanhar desde 2014 mais de 500 voluntários em São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus e Porto Alegre, compreendeu que os integrantes de grupos considerados de alta vulnerabilidade ao HIV aceitam bem a PrEP quando oferecida dentro de um pacote de prevenção combinada. E assim se vinculam ao serviço de saúde com retornos trimestrais para receberem, além dos comprimidos de Truvada, aconselhamento para gerenciamento de suas vulnerabilidades, camisinhas, lubrificante e testagem para as outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).

Daqueles entrevistados que tinham critérios de alta vulnerabilidade ao HIV e, portanto, indicação de PrEP, mais de 60% aderiram ao programa. E, dos que entraram no programa, 78% tiveram exames de sangue, na 4ª semana de acompanhamento, comprovando boa adesão aos comprimidos prescritos. Isso significa que a PrEP de fato funciona quando dada para aqueles com maior risco de infecção por HIV no Brasil.

Baseada nos resultados do PrEP Brasil, a proposta de oferecimento da PrEP seguiu então para a avaliação pela CONITEC, comissão que avalia a incorporação de novas tecnologias ao SUS. E tanto nas avaliações financeira e de custo-efetividade, quanto na consulta pública à população, o parecer final foi favorável à incorporação.

Com a última etapa pendente resolvida (o registro da ANVISA para o uso preventivo da droga) é feito o lançamento do programa brasileiro de PrEP. E, a partir daí, o Ministério terá um prazo de 180 dias para que a estratégia começa a ser distribuída. O Ministério da Saúde já está fazendo a sua parte, elaborando os manuais de orientação para os atendimentos e planejando fazer a PrEP chegar no primeiro ano a 7.000 pessoas, em todos os estados do país. Dependendo do sucesso na distribuição desse primeiro lote, está programada a ampliação nesse número.

O Protocolo que normatizará essa distribuição recomenda que PrEP seja oferecida para todos os integrantes dos grupos chave de alta prevalência que relatarem relações sexuais com penetração e sem preservativo. Os grupos são 1. Homens que fazem sexo com outros homens, 2. Pessoas trans, 3. Profissionais do sexo, e 4. Parceiros sorodiscordantes. A recomendação segue as diretrizes da Organização Mundial da Saúde, mas o simples pertencimento a algum desses grupos, sem relato de relações de risco, não significa que haja alta vulnerabilidade ao HIV e nem indicação da PrEP. Em todos os retornos os critérios de vulnerabilidade serão revistos para se decidir se a PrEP é mantida ou suspensa.

Uma vez lançado o protocolo da PrEP, teremos agora que enfrentar o pior dos obstáculos para o sucesso da estratégia: o preconceito. Devido ao desconhecimento sobre o assunto, é bastante frequente encontrar quem seja contra a PrEP. Os seus argumentos são muitas vezes válidos, como por exemplo o medo de que as pessoas deixem de usar a camisinha ou de que peguem outras ISTs. O que os haters da PrEP não sabem é que esses temas sempre foram preocupação entre os pesquisadores e estudiosos da PrEP. E que na verdade, se indicada para as pessoas certas, que preenchem os critérios descritos acima, a PrEP será dada para pessoas que já estavam em risco e se infectando com as outras ISTs, e que com o Truvada conseguiremos mantê-las livres pelo menos do HIV.

Mais do que isso, reconhecer que existem pessoas que não podem, querem ou conseguem usar a camisinha de maneira consistente e oferecer PrEP a elas, é amparar uma parte da população que foi por décadas esquecida pelas campanhas de prevenção e condenada pelo moralismo. E, vincular um indivíduo desses a uma rotina de consultas, testagem e tratamento precoce para ISTs, é por si só algo inédito e que terá impacto extremamente positivo na redução da circulação dessas doenças.

Agora então que o acesso à PrEP vai ser garantido pelo SUS, é a hora de lutarmos contra o preconceito com o assunto que existe dentro de cada um de nós. Preconceito que sufoca toda e qualquer discussão que envolva sexualidade no nosso país. Pois só assim, falando do assunto, aprendendo sobre ele e procurando compreender que, para algumas pessoas a PrEP será a melhor estratégia para se manterem livres do HIV, é que derrubaremos as barreiras existentes para que os comprimidos de Truvada cheguem a aqueles que mais se beneficiarão.

A melhor estratégia de prevenção é aquela que um indivíduo consegue utilizar de maneira correta e continuada. Não seja você o obstáculo para que o seu amigo, parente, parceiro ou paciente encontre a sua.


Ricardo Vasconcelos – currículo completo e contatos aqui –, formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), é infectologista do Hospital das Clínicas e trabalha no projeto PrEP Brasil, que você pode conhecer melhor clicando aqui.


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Parte 2: A verdade: portador do vírus do HIV indetectável não transmite o vírus

Parte 3: Por que você pode namorar um soropositivo e a vida de dois positivos juntos

Parte 4: Por que todos devem começar o tratamento ao serem diagnosticados com o HIV

Parte 5: Dúvidas dos leitores: do sexo oral a efeitos colaterais dos remédios contra o HIV

Parte 6: As novidades do tratamento e por que um homem com HIV pode ter filho sem transmitir o vírus