10 outubro, 2017

Prevenção Combinada ao HIV: Bem-vindos a 2017

Nem só camisinha: entenda tudo sobre PrEP, PEP e tratamento como prevenção – e coloque os conceitos antiquados na data que deveriam estar: nos anos 1980

Semana passada eu voltei de alguns dias maravilhosos em Curitiba, onde participei do 11º Congresso Brasileiro de HIV/Aids. Digo maravilhosos porque muita coisa interessante aconteceu por lá, e é sobre isso que vou falar aqui.

Com cerca de 4 mil participantes de todo Brasil e exterior – Estados Unidos, Reino Unido e América Latina –, o evento, que é organizado pelo Ministério da Saúde a cada 2 anos, já se tornou o mais importante do País no campo da articulação social, pesquisa, prevenção e tratamento do HIV.

Esse é o único congresso do tipo no Brasil que conta não só com uma programação técnica-científica, mas também com intensa participação da sociedade civil, seja de ONGs e associações – como a das Trabalhadoras do Sexo ou a Nacional das Travestis e Transexuais –, na forma de participações individuais espontâneas ou de pessoas vivendo com HIV, de seus parceiros e/ou familiares, ou de comunicadores do tema, como youtubers, blogueiros e jornalistas. Essa característica, associada ao fato de ter sua inscrição totalmente gratuita, permitem que o congresso tenha um colorido e energia especiais.

Durante o evento foram apresentados os dados atualizados sobre a situação da epidemia no País, baseados em estudos realizados em 2016, que mostram aumento alarmante da concentração dos casos de HIV entre gays e outros homens que fazem sexo com outros homens e entre mulheres trans. Cerca de 20% dos gays e 30% das mulheres trans do Brasil vivem atualmente com HIV. Pra quem não sabe, entre os gays esse número era de cerca de 10% em 2010.

O lado bom da história é que nesse mesmo congresso foi lançada, 20 anos depois da chegada da terapia antirretroviral ao SUS, a estratégia nacional de Prevenção Combinada contra o HIV, que resumidamente consiste na ideia de associar diferentes métodos conhecidos e eficazes de prevenção do HIV, de maneira a se montar um esquema de prevenção se que encaixe na realidade de cada indivíduo, respeitando sua autonomia e os diferentes contextos de vida existentes. Não mais achando que um único modelo, como o mantra “use camisinha”, vá funcionar para todas as pessoas.

O princípio da Prevenção Combinada considera que as melhores estratégias de prevenção para um indivíduo são aquelas que ele escolhe usar e é capaz de utilizar de maneira correta e constante. Essa mudança no entendimento da prevenção permite por exemplo que um indivíduo que não consegue ter uma boa adesão ao uso da camisinha tenha opções para se manter livre do HIV. É para essas pessoas que a combinação de outras estratégias eficazes de prevenção terá o maior impacto.

Nesse cenário, a chegada da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) com o Truvada diário como estratégia pública de prevenção e, portanto, com vinculação de mais pessoas a um acompanhamento regular no serviço de saúde, tem importante papel na potencialização dos resultados da Prevenção Combinada.

Segundo anúncio oficial, a partir do dia 1º de dezembro teremos 35 serviços em todo País realizando atendimento de PrEP pelo SUS. Serão disponibilizados só no primeiro ano do projeto 10 mil kits de um ano de Truvada, destinados para as populações chave de maior vulnerabilidade, como gays, pessoas trans, trabalhadores(as) do sexo e pessoas vivendo relacionamentos sorodiferentes. Entretanto, o simples pertencimento a um desses grupos não é por si só já indicação do uso de PrEP, a indicação será feita após avaliação de vulnerabilidade baseada na capacidade e frequência da utilização do preservativo nas situações com risco de transmissão de HIV. Esses kits são para distribuição exclusiva para os atendimentos feitos no SUS, mas já existem disponíveis duas farmácias realizando o atendimento do mercado privado de Truvada.

Além da PrEP, foi anunciada no congresso uma reformulação da Profilaxia Pós-Exposição (PEP) que dentro de 180 dias vai passar a ser feita com um novo esquema antirretroviral baseado no novíssimo e potente Dolutegravir, possibilitando eficácia na prevenção do HIV com menos comprimidos e menos efeitos colaterais (como os olhos amarelos causados pelo atual esquema de PEP). A PEP passa a ser agora uma oportunidade de investigação e tratamento de outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), e de atualização da carteira vacinal.

E por fim, o conceito do Tratamento como Prevenção, ou seja, a não transmissão sexual do vírus a partir de indivíduos que vivem com HIV que estão em tratamento adequado e com carga viral indetectável, foi enfim definitivamente integrado à campanha oficial de prevenção.

Com tudo isso, é tempo de ressignificar o conceito de Sexo Seguro, que não pode mais se restringir a Sexo com Camisinha. E isso significa incluir uma multidão de pessoas, antes marginalizadas, no seu programa de prevenção de HIV, sem prejudicar a qualidade da vida sexual delas.

Durante toda a semana, representantes de todos os estados do País discutiram as dificuldades e desafios existentes na implementação de um programa de Prevenção Combinada funcional, e mostraram as experiências bem sucedidas nesse processo. Uma questão bastante frequente nessas discussões foi a não aceitação por parte dos profissionais da saúde e até mesmo da sociedade civil de um novo modelo de prevenção, diferente daquele centralizado no uso da camisinha. De fato, estamos diante de uma mudança de paradigma, e falar sobre o assunto para resolver as dúvidas é a melhor forma de acabar com as dificuldades que ainda existem para que essa mudança aconteça.

A Prevenção Combinada está chegando às vidas dos brasileiros. Sejamos nós facilitadores na disseminação desses conceitos e não obstáculos, pois somente assim conseguiremos fazer com que as pessoas que mais precisam de ajuda na prevenção do HIV tenham acesso às informações e a estratégias eficazes como a PrEP. Vamos falar sobre o assunto até que isso seja algo natural para todos, e vamos deixar os conceitos antiquados de prevenção, que não conseguiram controlar a epidemia, lá na década de 80.


Ricardo Vasconcelos – currículo completo e contatos aqui –, formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), é infectologista do Hospital das Clínicas e trabalha no projeto PrEP Brasil, que você pode conhecer melhor clicando aqui.


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Parte 2: A verdade: portador do vírus do HIV indetectável não transmite o vírus

Parte 3: Por que você pode namorar um soropositivo e a vida de dois positivos juntos

Parte 4: Por que todos devem começar o tratamento ao serem diagnosticados com o HIV

Parte 5: Dúvidas dos leitores: do sexo oral a efeitos colaterais dos remédios contra o HIV

Parte 6: As novidades do tratamento e por que um homem com HIV pode ter filho sem transmitir o vírus