7 novembro, 2017

PEP com Dolutegravir

Prevenção contra o HIV: a “pílula do dia seguinte” está mais eficaz. Entenda!

Vivemos no Brasil o início da era da Prevenção Combinada contra o HIV. Um novo jeito de pensar a prevenção, que considera que diferentes pessoas podem escolher diferentes maneiras para se protegerem do vírus. E que quanto mais opções de prevenção tivermos disponíveis, melhor.

A camisinha deixa então de ser a única forma de se ter sexo seguro e passa a compor, junto com a PrEP e o tratamento de quem já vive com HIV, um cardápio de possíveis estratégias para manter alguém livre do HIV. Não entendeu? Então veja essa campanha australiana de divulgação da Prevenção Combinada:

Mas hoje quero falar especificamente da PEP, que também faz parte da Prevenção Combinada e está passando por completa reformulação e upgrade no Brasil.

A PEP, da sigla em inglês para profilaxia pós exposição, é uma estratégia de prevenção contra o HIV para pessoas soronegativas que consiste no uso de um esquema de medicamentos contra o vírus que são tomados depois que uma situação de risco de transmissão de HIV aconteceu, com o objetivo de bloquear essa infecção. Trata-se de uma medida de emergência, para ser usada no contexto da Prevenção Combinada quando houve sexo sem nenhuma das medidas preventivas abordadas no vídeo (camisinha, PrEP ou tratamento adequado do soropositivo). A PEP é a última alternativa disponível para que uma pessoa evite a transmissão do HIV.

O esquema antirretroviral da PEP deve ser iniciado rapidamente para o bloqueio da infecção, no máximo até 72h depois do sexo desprotegido, e precisa ser tomado diariamente por 28 dias para que tenha eficácia protetora máxima. A partir daí são recomendadas duas novas testagens para HIV, uma com 1 mês e outra com 3 meses depois do início da PEP, para se confirmar que não houve infecção. Quando usada de maneira correta a PEP reduz a chance de transmissão a níveis insignificantes.

Apesar de ser tão eficaz, vemos que o uso da PEP Sexual encontrou certa resistência no Brasil desde a sua regulamentação no SUS em 2010, sendo que no ano de 2016 inteiro foram distribuídos apenas cerca de 50 mil kits no Brasil todo.

Um dos motivos da baixa procura pela PEP é o medo dos efeitos colaterais dos medicamentos antirretrovirais contidos nela. E, de fato, muitas pessoas tinham enjoo, diarreia ou ficavam ictéricas (amarelas) durante o uso dos comprimidos. No ambulatório especializado de HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, por exemplo, apenas 40% dos usuários de PEP chegaram ao retorno 1 mês após a exposição em 2016.

Mas agora tudo vai mudar pois, desde a semana passada, começaram a ser colocadas em prática algumas determinações do Ministério da Saúde que farão da PEP uma das estrelas da Prevenção Combinada.

A primeira delas é a mudança do esquema antirretroviral utilizado na PEP, que agora passará a utilizar o Dolutegravir no lugar do Atazanavir/ritonavir. Essa mudança para uma droga de última geração deixa a PEP muito mais fácil de ser tomada por não ter mais praticamente nenhum efeito colateral importante que possa levar ao seu abandono. Essa mudança no esquema, no entanto, deverá ser gradual, respeitando o término dos estoques dos medicamentos antigos de cada farmácia.

Além disso, a nova PEP deixará de ser um simples momento de dispensação de medicamentos e passará a funcionar como uma oportunidade para aconselhamento de Prevenção Combinada, com atualização das demais Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), com testagem, diagnóstico e tratamento da sífilis, e da vacinação/testagem para hepatites virais.

Essas novidades já começam a preparar o terreno para a chegada da PrEP, programada para o dezembro, quando a Prevenção Combinada vai realmente entrar no Brasil e passar a ser assunto obrigatório na vida de todos. Com a PrEP implementada e com a Prevenção Combinada sendo colocada em prática, a PEP, já com o esquema novo, vai enfim deixar de assustar seus potenciais usuários e encontrar o seu importante papel dentro da prevenção, ajudando muita gente a se manter livre do HIV.

São inúmeras as oportunidades de prevenção, assim como são inúmeras as possibilidades de se viver sua sexualidade. Entenda todas as partes da Prevenção Combinada e escolha aquelas que cabem na sua vida. Assim estará contando com as ferramentas mais modernas disponíveis para prevenção e ajudando o Brasil no enfrentamento da epidemia de HIV.


Ricardo Vasconcelos – currículo completo e contatos aqui –, formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), é infectologista do Hospital das Clínicas e trabalha no projeto PrEP Brasil, que você pode conhecer melhor clicando aqui.

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Parte 2: A verdade: portador do vírus do HIV indetectável não transmite o vírus

Parte 3: Por que você pode namorar um soropositivo e a vida de dois positivos juntos

Parte 4: Por que todos devem começar o tratamento ao serem diagnosticados com o HIV

Parte 5: Dúvidas dos leitores: do sexo oral a efeitos colaterais dos remédios contra o HIV

Parte 6: As novidades do tratamento e por que um homem com HIV pode ter filho sem transmitir o vírus