23 agosto, 2016

Problema que você não vê

Os casos de sífilis – bem como de gonorreia e de clamídia – estão em franca ascensão entre os gays. Mas você sabe como transar do jeito que você gosta e manter sua saúde?

2014-08-18-Gay_Couple_togetherness_in_bed_01Vamos direto ao ponto: nos últimos 10 anos, nos Estados Unidos, os novos casos a cada ano de sífilis explodiram 20 vezes. E, acredite, 83% desses casos ocorreram entre os gays. E o que o Brasil tem a ver com esse número? Simples: a mesma tendência que foi verificada por lá e com outras DSTs, como gonorreia e infecção por clamídia, ocorre por aqui. Apesar de as três doenças citadas serem curáveis com tratamento correto, suas epidemias se tornam particularmente alarmantes uma vez que a presença de uma outra DST facilita a transmissão do HIV.

Por que os gays estão contraindo mais DSTs?

O surto atual de DSTs não-HIV na população gay masculina é atribuído primeiro à maior frequência de troca de parceiros sexuais nesse grupo, principalmente a partir do início dos anos 2000, com o surgimento das ferramentas para busca de encontros – começou lá com atrás com chats e sites de busca de encontro e agora está com tudo em aplicativo de pegação – como já contamos aqui. Em segundo vem o resultado: a prática de sexo desprotegido, inclusive o sexo oral – sim, oral também é sexo! E anote: se o sexo oral tem risco desprezível de transmissão de HIV, é a maior via de transmissão das outras DSTs.

Façamos uma analogia simples: se você fumar, terá uma chance maior de desenvolver doenças pulmonares e cardiovasculares. Se você beber álcool antes de dirigir, estará mais sujeito a se envolver em acidentes automobilísticos. Assim, é recomendado que se evite tais práticas para que você não seja penalizado, certo? Sendo mais claro: se você dirigir embriagado pode perder a vida, já se esquecer da prevenção, pode contrair alguma doença.

Os gays são sabidamente mais vulneráveis às doenças sexualmente transmissíveis (DST) e não adianta fechar os olhos para este fato: gays têm mais parceiros e praticam sexo anal. Sendo assim, todo homem gay com vida sexual ativa precisa saber gerenciar sua vulnerabilidade. Quando falo de DSTs não me refiro só ao HIV que tem, sim, 40 vezes mais chances de acometer um homem gay durante sua vida que um heterossexual. Estou falando de epidemias silenciosas que acontecem nos bastidores, muitas vezes sem causar sintomas, mas que devem entrar na equação do gerenciamento de risco individual.

Como você pode se prevenir?

Na vida adulta qualquer pessoa precisa saber administrar e lidar com riscos. E em alguns países como Austrália, Reino Unido e Estados Unidos, já há programas de promoção de saúde com rotinas de aconselhamento de prevenção, testagem e vacinação oferecidas para homens gays. Se no Brasil não temos ainda uma recomendação governamental para isso, cabe a cada um de nós gerenciar nossa própria vulnerabilidade e correr atrás de nossa saúde sempre que nos identificarmos em situação de risco.

Em resumo, todo homem gay com vida sexual ativa deve estar atento não só ao HIV mas também à sífilis, gonorreia e clamídia, principalmente se tiver vários parceiros e se praticar qualquer tipo de sexo desprotegido, lembrando que essas DSTs podem ser totalmente assintomáticas. Por causa disso, deve realizar seus exames a cada três-seis meses, pois dessa maneira mesmo que venha a se infectar com alguma DST – não HIV, em pouco tempo já terá sido feito o diagnóstico e o tratamento adequado.

E sim, os gays devem (ou deveriam), além de usar a camisinha o máximo, se lembrar da PrEP, com o uso do Truvada, e da PEP, a pílula do dia seguinte contra o HIV, quando só com o preservativo não for capaz de se proteger. E o que mais? Estar com a vacinação contra a hepatite B em dia. Prevenção significa também estar ciente e atualizado de métodos e novidades, já que elas sempre estão surgindo. Camisinha, sim, mas muito mais que camisinha.

Não podemos multar como na Lei Seca os indivíduos que não seguirem essas recomendações, mas é possível conscientizar a população gay de que, somente assim, é possível transar em 2016 com saúde.


Ricardo Vasconceloscurrículo completo e contatos aqui –, formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), é infectologista do Hospital das Clínicas e trabalha no projeto PrEP Brasil, que você pode conhecer melhor clicando aqui.


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Parte 2: A verdade: portador do vírus do HIV indetectável não transmite o vírus

Parte 3: Por que você pode namorar um soropositivo e a vida de dois positivos juntos

Parte 4: Por que todos devem começar o tratamento ao serem diagnosticados com o HIV

Parte 5: Dúvidas dos leitores: do sexo oral a efeitos colaterais dos remédios contra o HIV

Parte 6: As novidades do tratamento e por que um homem com HIV pode ter filho sem transmitir o vírus