9 maio, 2017

Sexo Oral: todo mundo faz, mas ninguém fala sobre

A chance de você contrair o vírus do HIV por meio do sexo oral é rara. Mas quando se fala de outras DSTs, o inverso ocorre. Entenda!

Num encontro sexual entre pessoas, uma infinidade de possibilidades pode acontecer. Sempre com tesão e respeito é que se pode encontrar as melhores interações. Mas, independentemente do que você gosta: conchinha, ativo, passivo, versátil, pegação na balada, gouine, voyeur, trampling, BDSM ou o que for, a chance de em algum momento você receber ou fazer sexo oral não é pequena. O Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos, por exemplo, estima que 85% das pessoas com vida sexual ativa praticam sexo oral.

E no contexto da prevenção das DSTs, qual deve ser a preocupação em relação ao sexo oral?

Sabemos, sim, que o risco de transmissão de uma DST pelo sexo oral desprotegido não é igual para as diferentes DSTs e, curiosamente, a mais temida pelo senso comum, o HIV, é uma das que apresentam os menores riscos.

Segundo dados do Ministério da Saúde, se o sexo oral desprotegido transmitir HIV, faz isso de maneira muito rara, apresentando risco de no máximo 0,04%. Isso é o mesmo que dizer que a cada 10.000 vezes que um indivíduo fizer sexo oral numa pessoa que vive com HIV, que tenha carga viral detectável por não estar fazendo tratamento, em no máximo 4 dessas vezes, haverá a transmissão do vírus. O risco de se pegar HIV recebendo sexo oral é sempre de zero. Pensando que uma pessoa que tenha uma vida sexual agitada tem cerca de 500 parceiros durante a vida, e que nem todos eles vivem com HIV, muito menos têm carga viral detectável, conclui-se que a chance de se pegar o vírus por essa via é bastante pequena.

Entenda, no entanto, que não quero com isso dizer que o boquete sem camisinha está liberado, mas que o maior motivo de preocupação nessa situação não deve ser o HIV, e sim as outras DSTs, como por exemplo a sífilis, a gonorreia, a clamídia, a hepatite B e o HPV.

Se de um lado o HIV é pouco hábil nessa via de transmissão, essas outras doenças são superágeis, para a gonorreia, por exemplo, o risco chega a até 80% nessa prática. Nos Estados Unidos um trabalho mostrou que 20% dos casos de sífilis recém diagnosticadas em Chicago ocorreram em indivíduos que relatavam ter somente sexo oral desprotegido, enquanto no Brasil entre 2010 e 2015 o número de casos ao ano de sífilis adquirida aumentou em mais de 50 vezes. Já é também conhecido o crescimento recente no número de casos de cânceres de boca e garganta relacionados à infecção pelo HPV, transmitido também pelo sexo oral.

O cenário fica mais complexo pois qualquer uma dessas DSTs pode ocorrer sem que a pessoa tenha qualquer sintoma, fazendo com que o indivíduo se torne um potencial transmissor para seus parceiros sem nem mesmo saber que está infectado. Nessa situação somente é possível fazer o diagnóstico por meio de exames.

E, para completar, é bem conhecido o fato de que a presença de outra DST, mesmo que assintomática, pode aumentar o risco de transmissão do HIV numa relação sexual desprotegida.

E o que fazer frente a isso tudo? O melhor é fazer o que sempre recomendo em relação a qualquer DST: ficar esperto e pensar/falar/agir sobre o assunto, e não ignorar e esperar que algum desfecho ruim aconteça.

Por exemplo, meninas e meninos com menos de 13 anos e homens e mulheres que vivem com HIV com menos de 26 anos devem se vacinar gratuitamente para HPV, e todas as pessoas ainda não vacinadas para hepatite B também devem ser imunizadas gratuitamente.

A camisinha é sempre a melhor maneira de proteger de qualquer DST, mas se ela não está sendo usada, conversar com os parceiros sobre suas rotinas de rastreamento de DSTs e manter-se sempre em dia com os seus próprios exames de rotina é algo fundamental para qualquer pessoa que pratique sexo oral desprotegido com parceiros casuais. Dessa maneira, por mais que acabe pegando alguma dessas outras DSTs, o diagnóstico e o tratamento adequados poderão evitar tanto o desenvolvimento de complicações da doença quanto o ciclo de transmissão para novos parceiros.

O sexo mais seguro é aquele que é feito com a cabeça, sabendo onde se está pisando e o que é necessário fazer para continuar com saúde.


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Ricardo Vasconcelos – currículo completo e contatos aqui –, formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), é infectologista do Hospital das Clínicas e trabalha no projeto PrEP Brasil, que você pode conhecer melhor clicando aqui.


Aproveite e leia nosso especial sobre o HIV!

Parte 1: Especial UAA: precisamos falar sobre o HIV

Parte 2: A verdade: portador do vírus do HIV indetectável não transmite o vírus

Parte 3: Por que você pode namorar um soropositivo e a vida de dois positivos juntos

Parte 4: Por que todos devem começar o tratamento ao serem diagnosticados com o HIV

Parte 5: Dúvidas dos leitores: do sexo oral a efeitos colaterais dos remédios contra o HIV

Parte 6: As novidades do tratamento e por que um homem com HIV pode ter filho sem transmitir o vírus