16 março, 2017

Isolados

Por que damos tanta importância a uma selfie a ponto de nos esquecermos de nossas janelas reais em prol de uma vida virtual?

A notícia não é nova. Nem um pouco nova, diga-se. As redes sociais transformaram as relações em algo muito diferente do que eram num tão passado nem tão distante. E logo apregoou-se a internet um dado (incontestável) que diz que elas aproximam as pessoas. E é verdade! Namoros antes impensáveis e amizades com distâncias inimagináveis foram criadas por meio de redes sociais. Incrível? Nem tanto…

Nos últimos anos, vieram a galope dados que só atestam aquilo que é meio óbvio: as relações ficaram rasas e mais delicadas. Nos consultórios, psicólogos já escutam reclamações de gente que procura uma solução para a egotrip. E pesquisas que parecem engraçadinhas mostram um resultado triste, tem uma que diz que quem tira selfie tem problemas de autoestima; outra vai além e crava que quem capricha na selfie tem transtornos mentais. Oras, não é preciso nenhuma estatística para saber que o autorretrato moderno vem deixando muitos de nós… aprisionados na própria imagem.

Trocamos a foto com amigos por uma foto solitária. Trocamos a foto com a família por nossa próprio retrato. E pode notar: é muito comum você navegar na conta de uma pessoa e só vê-la sozinha. É o tal do “eu na academia”, “eu indo dormir”, “eu em meu banheiro sem camiseta”, “eu inchado pós-treino”, eu comendo alguma coisa”, “eu de frente para o mar”. Não se vê mais a paisagem, tampouco quem está ao seu lado – se é que há alguém do lado. Bastam alguns likes e missão cumprida: fomos aprovados pelo tribunal do internet. E salve-se quem puder.

Com um pouco de observação percebe-se também que apareceram estudos, desta vez sérios, dizendo que essa geração é mais propensa ao suicídio, mais solitária, mais triste. Não é privilégio dos gays – embora se veja mais facilmente entre eles – este padrão que corre numa única direção: o isolamento pela aprovação alheia. Mas quem precisa aprovar você?

Eis a questão: o que não se leu ainda, em nenhum lugar, está exatamente nesse delicado pontinho perdido entre tantas milhões de… selfies. Para quê? Para quem? Por que precisamos tanto registrar nossa face?

Pense, quem não conhece casais que brigam pelo incômodo de uma selfie postada? E, verdade seja dita, confesso que não dá para entender essa luta. Por que uma selfie que é curtida por desconhecidos tem mais valor de que seu sorriso para alguém que se ama? Por que follows e unfollows de anônimos tornaram-se motivo de discórdia?

Há uma resposta simplista: a diferença do passado para o presente é pequena e muito sútil: até bem pouco tempo atrás nossas fotos eram exibidas somente para quem temos intimidade. Simples. Sendo assim, não é possível aceitar que redes sociais e uma selfie tenha mais importância ou ganhe mais relevância do que o toque de quem se gosta.

Talvez seja hora de a gente rever nossos conceitos de liberdade e intimidade. E, quem sabe, deixar nosso ego ser acariciado por quem interessa e está ao alcance de nossos dedos – e muito além de uma imagem projetada. Bora?

 


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