20 julho, 2017

Efeito Aura

Você se deixar enganar pelas aparências?

As aparências enganam. Eu poderia resumir esse texto inteiro nessa simples frase. O problema é que, quando ouvimos um clichê, raramente investigamos se eles têm realmente algo interessante a mais que possamos extrair, acaba sendo uma daquelas coisas que todo mundo conhece, mas ninguém conhece de verdade. Nesse caso, especificamente, todos sabemos, ou deveríamos saber, que as aparências enganam. Difícil é identificar e reconhecer cada um desses muitos disfarces na correria da vida. Resolvi explicar então um paradigma que conheço há algum tempo, mas que pouco tive a oportunidade de conversar sobre.

Durante a 1a Guerra Mundial, o psicólogo americano Edward L. Thorndike – formado em Harward – realizou uma pesquisa no exército sobre a maneira como os superiores tratavam seus subordinados. O estudioso percebeu um padrão muito peculiar: os oficiais praticamente imaginavam que um soldado de boa aparência e postura seria também capaz de atirar bem ou ter imediatamente outras qualidades, como por exemplo tocar gaita. Nascia o conceito de Efeito Aura. Os trabalhos não pararam por aí. Recentemente, o PHD Phil Rosenzweig aplicou esse conhecimento no mundo dos negócios e ajudou a mostrar que esse “efeito” transcende as pessoas, envolve coisas, marcas e até companhias inteiras, defendendo a ideia de que somos o tempo todo enganados pela boa aparência das coisas.

É como se houvesse uma Aura em volta de algumas pessoas que as tornassem intocáveis, imediatamente éticas – ou, como é mais comum, como se tivesse algo que repelisse qualquer olhar mais desconfiado, dando a elas um selo imediato de confiança. Um bom exemplo é a crença velada de que ser cool é suficiente. Você pode trair seu companheiro, mentir, roubar, aprontar, ser o cara mais maldoso do mundo, mas se você imprime bem na foto com o seu grupo e ri das piadas, seja bem-vindo! Ninguém vai te fazer perguntas. O resultado disso é que você acaba premiando pessoas que sabem se vender melhor em vez das que têm o melhor produto. No português claro, acaba sendo melhor estar na moda do que valer a pena. Que tipo de mundo se constrói assim? O tipo de mundo do qual você reclama e precisa viajar para o Caribe depois para não ficar maluco.

Possuímos uma série de bons arquétipos já prontos: “O vegano budista”; “o socialmedia engraçado”; “o jovem bem-sucedido de mente-aberta” – entre centenas de outros muito mais subjetivos e difusos em que nossas mentes encaixam as pessoas, com ou sem a ajuda delas. É comum alguém bonito, de sorriso fácil, conquistar apoio e convites dos mais variados grupos sociais. Às vezes basta uma pequena dose de marketing pessoal e ninguém vai se importar em saber se na cidade que você morou antes de vir pra São Paulo, misteriosamente, ninguém fala mais com você, ou ainda alguém que sempre teve namoros longos parece ser um bom namorado, quando ninguém sabe que, na realidade, todos eles foram abusivos.

A aura costuma enganar bem os mais alienados, mas como muitos comportamentos ou conceitos do bem e do mal, são subjetivos e povoam as profundezas do inconsciente. Todos estamos sujeitos a isso. Às vezes é constrangedor dividir uma informação negativa. É provável que pessoas mais atentas ouçam coisas do tipo: “Nossa, você é muito exigente, não gosta de ninguém! ” de pessoas que se recusam a enxergar ou lidar com a realidade de coisas que são até realmente palpáveis ou testemunhadas.

Não quero aqui endossar nenhuma espécie de comportamento paranoico, nem te fazer sentir competente para julgar o passado ou o erro dos outros – até mesmo porque a autocrítica é a deusa mãe da evolução social – apenas despertar uma espécie de curiosidade sobre o que nos cerca. Tem tanta gente reclamando por aí de comportamentos nocivos de pessoas pelo mundo afora, mas que no dia a dia é capaz de ser conivente, até cúmplice, desses próprios, bastando que o vilão tenha uma fala mansa ou um lindo par de olhos azuis. Fique atento, a sociedade é muito mais íntima da mentira do que o senso comum nos conta, a surpresa para alguns é que ela não vem necessariamente em forma de palavras.


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