28 novembro, 2017

História de João e Maria

Ele era João, mas agora é Maria: a modelo que mudou de sexo, manteve-se na profissão e não poderia estar mais feliz

É a história de João e Maria. Não aquela, que você conhece, sobre os irmãos gulosos que são capturados pela bruxa malvada. É um enredo um tanto diferente, cujo final consegue ser ainda mais feliz que o do conto de fadas. Maria Clara Melo é uma modelo catarinense, radicada em São Paulo, de 23 anos, que vem aos poucos roubando os holofotes nas semanas de moda nacionais. Acontece que Maria nem sempre foi Maria. Ela nasceu João Luiz Daros de Melo, e foi João até os 21 anos quando percebeu que queria ser Maria.

Todo o processo de transição, Maria colocou no blog Sobre João e Maria, que ela criou como autoterapia e para compartilhar com outras pessoas que talvez estivessem passando pelo mesmo momento. Afinal, trans na moda está na moda. As modelos Lea T. e Valentina Sampaio são dois exemplos de brasileiras que conquistaram grifes, revistas e passarelas gringas. Como não lembrar, também, do modelo trans Ben Melzer, que já estrelou campanhas da Calvin Klein, Diesel, Mercedes-Benz e por aí vai.

O cenário é favorável, mas Maria está (re)começando com calma. Ela acabou de fazer diversas cirurgias faciais e ainda está se adaptando, dia a dia, ao seu novo corpo. Ano que vem, ela pretende desbravar, sob outro ponto de vista (com direito a muito salto-alto), o mundinho fashion novamente. E pretende lançar um canal no YouTube, afinal mesmo no mundo da moda o jogo não está ganho. Na verdade, está longe disso. Diferentemente do caso dela, há diversos e diversas transexuais que não têm o apoio da família e de amigos. “Tenho muita sorte de estar cercada por amigos e família que só querem o meu bem e me respeitam bastante. Infelizmente não acontece com todas”, diz durante a conversa exclusiva com o UAA.

Abaixo tem o restante da nossa entrevista. Só não se esqueça de guardar bem o rostinho dela – em breve, ela estará nas principais revistas, campanhas e passarelas. Entende porque essa história de João e Maria é muito mais interessante que uma bruxa caindo num caldeirão de água fervente?

É oficial? Nos documentos seu nome está Maria Clara Melo atualmente?
Não, ainda não. Estou iniciando o processo pra efetuar a mudança.

Conta um pouco da sua infância e da sua família?
Minha família tem 6 integrantes: meu pai, minha mãe e minhas 3 irmãs (e agora meus cunhados). Somos do interior e todo o restante da família mora superpróximo, então tive uma infância longa, livre e divertida. Convivia muito bem com as meninas e os meninos, mas estava sempre com as meninas, o universo feminino sempre me atraiu. Quando criança (e adolescente) lembro que eu e minha irmã mais nova montávamos looks com as roupas da minha mãe e ficávamos brincando de desfile, amava brincar de desfile.

Quando você percebeu que era diferente? Sempre soube que era trans?
Eu sempre soube, porque sempre tive problemas com as coisas que eu gostava ou com o meu jeito. Eu sentia coisas que sabia que os meninos não sentiam (ou não deveriam sentir) e sabia que era perigoso expor isso. Apesar de ter parentesco com uma pessoa trans, eu não fazia ideia de que eu poderia ser. Achava que era gay, ou fingia que acreditava porque sabia que seria menos difícil assim, mas chegou um momento em que não consegui mais fugir do assunto e comecei a pesquisar sobre a transexualidade. Fui tomando coragem pra viver a minha real identidade.

Foi difícil aceitar? Sua família e amigos te deram apoio?
A aceitação mais difícil foi a minha. Sempre tive vergonha de demonstrar que era feminina – mesmo não conseguindo esconder –, mas na época parecia mais uma delicadeza. Pros meus país é um pouco mais complicado, não deixaram de me amar e de se preocupar comigo, mas aos poucos fui explicando e mostrando o que estava acontecendo. Meu pai não gostava de ver as minhas fotos mudando, mas sempre mantinha eles atualizados do processo. Já meus amigos se mantiveram fiéis, me aproximei muito mais deles depois que me assumi. Inclusive foi um dos meus melhores amigos que começou a falar sobre o assunto comigo, dizendo que eu era diferente e dando apoio para que eu buscasse ajuda profissional.

Conta um pouco do processo de mudança de sexo – das alterações no corpo à saúde. Como é?
Mentalmente é uma avalanche de emoções. Quando comecei a tomar o hormônio feminino e a bloquear o masculino me vi como as minhas irmãs quando ficavam de TPM. Chorava por qualquer coisa, ficava estressada facilmente e, às vezes, as duas coisas em poucos minutos. Fisicamente a mudança é um pouco mais lenta: você ganha um pouco de bumbum, o peito começa a crescer, a pele fica mais macia e o rosto ganha um traço mais delicado.

Você acabou de fazer a cirurgia de faminizacao facial, certo? Está feliz com o resultado?
Apesar de sempre ter tido traços faciais femininos algumas coisas me incomodavam bastante ainda. Tinha um pouco de medo de fazer, mas quando conheci o Dr. Luiz Paulo Barbosa fiquei mais confiante. Estou super feliz com o resultado. Fiz mudança na testa, nariz, queixo e pomo de Adão. O resultado não é imediato, mas já me vejo como outra pessoa.

Você é modelo. O que a mudança significou para a sua profissão?
Bem, eu peguei uma fase em que estava literalmente na moda o assunto. De certa maneira me deu mais visibilidade – e é ótimo que a moda com a sua influência esteja começando a nos abraçar.

Você está trabalhando mais, menos ou não fez diferença?
Eu estou no processo de mudança ainda, literalmente. Quando desfilei no SPFW pela primeira vez, no início do ano, tinha acabado de iniciar o processo. Ainda estou fazendo laser pra eliminar os pelos, acabei de fazer algumas cirurgias faciais e estou me preparando pra voltar com tudo no ano que vem. Ainda não me sinto pronta para entrar na onda frenética de trabalhos.

Você está feliz?
Na maior parte do tempo, e depois da cirurgia muito mais. Algumas situações me deixam triste às vezes. As pessoas não estão preparadas – e parecem nem querer estar preparadas – pra conviver com uma pessoa trans. Tenho muita sorte de estar cercada por amigos e família que só querem o meu bem e me respeitam bastante. Infelizmente não acontece com todas.

Fala um pouco sobre seu blog Sobre João e Maria?
Meu blog foi como terapia pra mim. Comecei junto com a transição e me expressava de maneira bem íntima. Parei de escrever há um tempo porque comecei a achar que estava íntimo demais e não sabia se queria que todo mundo tivesse acesso aos meus segredos. Além disso eu vejo que já não sou mais a mesma pessoa que aquela que começou a escrever – isso me deixa muito feliz! Quer saber? Vou voltar a escrever nele :)

Está envolvida em algum projeto que gostaria de divulgar?
Estou planejando e organizando um canal no YouTube. Vai ser uma versão do blog falando sobre a questão trans e outros assuntos, mas só Maria Clara desta vez. Acredito que ano que vem já estarei online.


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