13 dezembro, 2016

Ghosting, cadê o amor que estava aqui?

Fenômeno da era moderna – e da internet, o que leva uma pessoa simplesmente a desaparecer de uma relação?

alyssa-monks

Um dos fenômenos derivados da virtualização das relações sociais mais conhecidos é o ghosting. Eleita como uma das palavras de 2015 pelo dicionário britânico Collins, tenho certeza, é tema quase onipresente da dor de cotovelo de 9 em cada 10 dos seus amigos. Ela é usada para caracterizar o repentino e “inexplicável” desaparecimento de um pretendente. Sabe quando você está conversando com um cara há algum tempo pelo Facebook e de repente ele começa a responder com frases curtas até que desaparece? Então, a facilidade de conhecer novas pessoas trouxe consigo um lado ruim: a facilidade em igual proporção de se desfazer delas. “Enjoei, parei”. Simples, porém dramático.

Existem vários lados desse comportamento a serem observados, um deles é o real e pessoal conceito de relacionamento. Pessoas levam diferentes tempos para se envolverem. Desde que o mundo é mundo não dá pra ignorar o fato de que existem amantes que se relacionam sozinhos, fantasiam intimidades e projetam no outro uma urgência que é só delas, num espiral de carência e ansiedade. Eles confrontam e piram ao menor sinal de rejeição, afugentando qualquer um que procura um amor tranquilo, saudável e homeopático. Interesse não é algo que dá pra se forçar. Quando se perde, lentamente acabamos indo embora; explicar essa situação é algo bem complicado. Mas não é por isso que o termo se tornou famoso.

O segundo ponto é o mais cruel e vem da desumanização, da forma automática e líquida com que lidamos com nossos protorrelacionamentos. Tem gente que realmente usa pessoas – conscientemente ou não – para suprir suas necessidades afetivas. Um belo dia você acorda sentido falta de uma parceira romântica. Em alguns dias ou semanas, isso se torna uma verdade no seu coração. Na sua busca, passa a se portar como o melhor partido do mundo: conhece alguém, se conecta, faz promessas, tudo leva a entender que algo está sendo construído. Mas é mentira. De repente, basta que o cérebro entenda que aquela satisfação pessoal foi atendida para que se sinta completo. Pronto, a outra pessoa perde o significado, você a descarta arrumando qualquer defeito óbvio que faça algum sentido na sua cabeça e se torna o mais novo cafajeste da cidade. Parabéns!

Mas o que leva a pessoas a desaparecerem assim? Bem, cada caso é um caso, mas eis alguns que considero os mais comuns: falta de empatia e educação (porque o egoísmo é o hino nacional do ocidente), falta de paciência (porque nem sempre a outra pessoa terá maturidade pra entender um não e isso é realmente insuportavelmente chato), cilada (como explicar que o meu melhor amigo falou que você não vale um real?) e, finalmente, covardia (porque ao dizer a uma pessoa que não se quer nada sério, muitas vezes é o mesmo que dizer pra si mesmo que você tem um péssimo defeito: não consegue nem se relacionar, nem ser independente, ou que é inconstante e a única saída que achou é usar periodicamente alguém pra iludir, isso soa feio até pra você, então por que encarar a versão ruim de si mesmo de frente se você pode colher os frutos da hipocrisia?).

Se o ghosting é algo passageiro, se é natural e inevitável, sinceramente não sei dizer. Prefiro incentivar que aprendamos a lidar com nossas relações, quaisquer que sejam os formatos delas, a traçar um cenário apocalíptico e pessimista moderno. É visível, porém, que esse sintoma tem como fonte as bases cada vez mais virtuais das nossas relações, com a gamificação do outro é muito fácil apagar da sua vida alguém cujas principais vias de conexão estejam restritas a pequena e ansiosa tela de um celular. Isso não significa que a solução seja limitar nosso circulo de possibilidades amorosas ao nosso bairro, apenas que tenhamos consciência de que vivemos sob regras mais voláteis, entender e se importar menos com supostos abandonos, mas principalmente, combater e evitar comportamentos babacas disfarçados de uma incoerente independência e desapego digital ainda que presentes em nós mesmos.


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