2 junho, 2017

Namoro em tempos de cólera

Vale mais o abraço no dia seguinte ou o sexo sem limites? O papel da relação quando a liberdade parece ser o caminho mais fácil

No imaginário coletivo reina a impressão de que os namoros descritos por nossos avós eram mais duradouros. Pudera. No passado, é verdade, o amor já era um velho dilema. Porém, constituir família era também uma formalidade social e, como negar, exigência religiosa. Na contramão, dizem que os anos modernos provocam relações fugazes, curtas. Mas não seria leviano afirmar que as décadas de outrora, tomadas por fachadas sociais, tornavam as relações profundas?

Resposta impossível. Imagine então a questão dentro do afetivo gay, um planeta que parece mais livre e tão apto às novas ideias – e não cabem aqui julgamentos, conheço relações abertas e poligâmicas genuinamente verdadeiras. Entretanto são tempos desafiadores aos lúdicos que priorizam um… namoro. Nunca pareceu tão fora de moda, nunca se pôde ter tantos, então para quê ter um só?

E está aí a delícia da atualidade. Tempos nos quais a internet pode ser a melhor janela para uma pequena fuga, um delito, uma noite e nada mais. Anos em que as traições vão, sim, além do sexo casual. São tantas as possibilidades de dar errado que vencer o invisível pode aterrorizar. Desistir é confortável. Inconteste é saber que você vai aguentar defeitos, dias de mau humor e que, numa semana ou noutra, o sexo pode não ser ser tão avassalador.

Construir demanda paciência e alguma pieguice. E há de se enfrentar, sem covardia, irrefutáveis crises e dúvidas. Para quem conquista o prazer do reencontro diário – o tal namoro – fica a conclusão de que ele vale muito a pena. Não importando o quanto dure, tampouco se ele segue tradicionais convenções de fidelidade. Afinal, deliciosa é a troca de olhares afiada. Poderosa é a cama com a profundeza da intimidade.

Antes de você acreditar na velha retórica do “antes só do que mal acompanhado”, pense: você prefere acrescentar à sua vida mais um momento eufórico, destes cheio de tesão, ou acordar com a certeza de que terá um abraço só seu no dia seguinte?


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