21 setembro, 2017

A diferença entre querer e ser

Ao vivo, no GNT, Barbara Gancia apoia a possibilidade da terapia de reversão sexual apesar de dizer não acreditar em cura gay – uma declaração perigosa que apenas aumenta o preconceito e a homofobia

Barbara, equívocos com respaldo jurídico: é preocupante

Nesta semana, a jornalista Barbara Gancia participou do programa Saia Justa para mais um debate que poderia ser construtivo, mas que ela tornou puramente preconceituoso por suas ideias indefensáveis apesar da reação contrária de suas companheiras de estúdio Astrid Fontenelle, Mônica Martelli, Pitty e Taís Araújo.

Bárbara defende uma corrente que prega que a decisão do juiz do Distrito Federal não foi um veredicto para normalizar a cura gay e que tampouco o magistrado considerou ser gay uma patologia. Em resumo ela defende que “tecnicamente” é possível que uma pessoa “queira” procurar um tratamento psicológico para este fim. É preciso dizer também que seu pensamento não é uma novidade. Pois no Ilisp, o advogado Antonio Moura defende estes mesmos argumentos – chegando a dizer que quem viu “cura gay” na notícia “ou é analfabeto ou é desonesto”. Segundo essa tese acampada por ambos a decisão não fere a condição sexual de ninguém e um paciente pode procurar o psicólogo por escolha “livre e consciente”.

E tem muita gente que comprou essa história. Mas é preciso pensar além, pensar no país que vivemos e no impacto que decisões isoladas causam em famílias conservadoras antes de dizer que a imprensa foi seletiva e que a história não é bem assim.

Aos fatos: embora a decisão do juiz venha na esteira de baboseiras jurídicas que diariamente lemos e sabendo que ela provavelmente cairá como alega o Conselho Federal de Psicologia ao anunciar que recorrerá da pauta, é preciso se indignar, sim. Analfabetos são os que insistem em chamar a comoção de mimimi quando fala-se de propagar o ódio. Desonesto é não compreender que o que causou a histeria é uma decisão legal que acaba por amparar condutas homofóbicas e que é condenada pela Organização Mundial de Saúde.

O resultado de decisão já começa a aparecer: em determinado momento Bárbara – que comparou o alcoolismo com homossexualidade, tal qual um vício – diz que uma “mãe tem o direito de pegar o filho pela mão” e levá-lo ao consultório. A mesma Bárbara que teve sua condição sexual escancarada publicamente após uma pergunta de Paula Lavigne num jogo sujo, em 2013, no mesmo programa, e que declarou na sequência ter achado a pergunta preconceituosa “como se pegasse mal alguém ser gay hoje em dia”.

As colocações de Barbara reverberaram: muita gente comentou nas redes sociais do GNT que o pensamento da jornalista é brilhante pois as pessoas são livres para “serem o que quiserem”. Um comentário dizia que se alguém quer “voluntariamente mudar a orientação sexual tem esse direito” e outro dizia que “uma pessoa tem o direito de ir ao psicólogo para tratar da angústia da homossexualidade”.

Entenderam o perigo?

Não é preciso refletir longamente: um filho que é levado pela mãe ao psicólogo sairá mais oprimido, como tentou rebater uma incrédula Taís Araújo à jornalista. Um psicólogo não pode, afinal, criminalizar ou “preferir” uma condição sexual. Não podemos, portanto, tratar como anormal aquilo que tanto lutamos para ser reconhecido dentro da “normalidade”. Homofobia ainda mata – e mata muito.

Como as “saias” disseram no programa a prática pode levar ao charlatanismo – num passado nem tão distante há registros que associam terapias de “cura gay” com sessões de tortura. Pitty mandou bem ao dizer que “o mais importante é fazer com que essas pessoas se sintam confortáveis em suas peles do que tenham que procurar um ‘tratamento’ pra uma coisa que é um desconforto social” ao ouvir uma Bárbara que insistia dizer que a lei tem que “garantir amparo às pessoas que não se aceitam como homossexuais”.

Oras, o que lei tem que garantir é uma sociedade livre em que todos possam ser o que são. Simples assim. Mesmo que alguns achem o termo um exagero ou caça-clique, não dá pra defender terapia da cura gay. Essa mesma cura que Barbara diz não acreditar porque reconhece, como lésbica, que não é doente – se fosse ela iria ao médico e tomaria remédios, jamais ao psicólogo. A verdade é que se alguém tem problemas para aceitar sua condição sexual é porque vive em uma sociedade opressora e preconceituosa.

O que todo homossexual sabe é que não dá pra “querer ser” o que não é. Como um hétero sabe que não “optou ou escolheu” ser hétero. Em qualquer área da vida, ninguém consegue ser o que não é apenas “querendo ser”. Simplesmente nascemos e somos. Sendo assim, precisamos urgentemente parar de confundir os verbos “querer” e “ser”.

Aceitar que alguém tenha o direito de “querer” terapias de reversão sexual é assinar embaixo da homofobia, concordar que nossa sociedade está tão doente que, para ser saudável, precisa acatar imposições sociais. É simplesmente aceitar preconceitos e aumentar o número de homossexuais oprimidos e vítimas da violência. Não é apenas perigoso, é preocupante. E isso a gente não quer.


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