9 fevereiro, 2017

O Reino dos tolos

Quando uma pessoa que se acha se aproxima, você dá espaço?

 

Escolha uma bandeira bem bonita pra chorar sua tragédia preferida: defenda seu livre arbítrio de sofrer por quem quiser; brigue por essa liberdade. Permita-se achar que teria agido assim mesmo se o seu telejornal favorito não tivesse feito esse convite. Desligue-se pras dores da Nigéria, do Congo e do Afeganistão, minimize as intenções de quem perguntou sobre um desastre na Índia, bastardo ditador malvado, escolhendo o luto que é seu, um direito que te foi dado! Seja um cidadão global: selecione um causa descolada e mostre todo o seu histórico conhecimento geográfico sobre fome e violência; deixe que saibam quem você é.

Sabe aquele famoso livro que diz que Deus é amor? Pule direto para o ódio, sublinhe todos os castigos, leia pra sua doença e roube dele o poder de julgar os homens. Repita comigo: Deus criou Adão e Eva! Então, ignore todos os registros biológicos da Terra que mostram uma sexualidade diversa. Seja uma mulher submissa cristã e racista, seja um negro homofóbico, seja um viado machista. Seja um prisioneiro do seu discurso aprisionador, tente transformar o mundo num quadrado porque o redondo é demais pra você, pule da borda dessa terra plana e chata.

Abrace um monge no Tibet, tente ser vegano, suba até o alto da hipocrisia e tire uma foto do seu ego. Mostre que todos são cruéis, acenda um ou dois incensos, ame a natureza e os animais, esqueça das crianças nos sinais. Esqueça também da procedência dessa calça de costura inca e das pequenas mãozinhas que fixaram os bolsos na parte de trás. Tente não lembrar. Use seu carro poluente, compre orgânicos de grandes empresas, ignore o pequeno agricultor, vote na bancada ruralista, seja um homem bom.

Estude oito anos de medicina, mas brigue nos sinais. Lute contra os direitos trabalhistas, fale mal dos empregados, faça piadas inocentes, alegre seus amigos marginais – o mundo anda mesmo muito chato, culpa de quem ficou pra trás. Discuta política com um cientista político, sociedade com o sociólogo, mas deixe falar o engenheiro; aqui quem fala é quem ganha mais. Esqueça o que acontece na favela, vamos matar os bandidos e voltar pra Idade Média, quando tudo era mais legal. Vamos ser contra a cannabis porque isso matará seus filhos, mas vamos votar pelo porte de armas – é isso que os salvará!.

Agora exija que eu releve as coisas, “andas muito revoltado”! Me apresente sua família, mas peça que eu não esteja tão amarrotado. Ria quando eu falar sobre amor, transe com qualquer um, mas não venha me pedir conselhos. Evite ler os meus livros, evite sorrir pra mim. Ignore meus anseios e minha luta por liberdade, diga que sou louco, um fraco. Então, no final do dia, venha me falar de paz, venha receber um sorriso, requerer o que te satisfaz. Venha me contar sobre o seu dia, sobre seus sonhos fúteis que copiou da televisão. Me assista indo embora da sua vida, tenha saudades de mim.

Porque a partir de hoje sou um pote de verdades genuínas, não suas velhas e doces mentiras. Sou o que for preciso, a soma de erros e acertos, mudanças e incertezas, garantias e promessas. Sou alguém pra além de mim. Sou do tamanho da Terra, do tamanho que eu quiser. Tenho em mim todos os sonhos do mundo. Outros seguirão ao meu lado, quem é por todos nunca está só, no fundo ouço o fim da mediocridade pois o futuro me canta essa canção:

“Venha! Meu coração está com pressa, quando a esperança está dispersa, só a verdade nos liberta”.


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