6 junho, 2017

Uma boa vida

Afinal, qual o segredo da felicidade?

Qual o segredo da felicidade? Essa pergunta, ou qualquer tópico relacionado a ela, é tão recorrente e profunda que vende. Criou uma indústria de palestras e livros que prometem guiar qualquer ser humano disposto por um caminho objetivo, quase científico, em direção a uma vida feliz, repleta de satisfação. Tentador! Mas será que existe uma receita infalível para essa bem-aventurança moderna? Caso a resposta seja negativa, não há nada de substancial no qual possamos nos apoiar para, pelo menos, partir de algum ponto?

Uma das coisas mais importantes que precisamos nos dar conta para não cairmos numa armadilha ao perseguir um lugar tão almejado é que não existe esse lugar para ir. Caso você seja religioso e acredite no Paraíso, refino a afirmação: “não existe esse lugar para ir enquanto estivermos vivos”. Alguns pensadores aprofundam mais e negam a existência desse momento de repouso em que há gozo permanente e dizem que só identificamos os momentos felizes porque passamos por momentos infelizes. Logo, a felicidade só existe por comparação; caso fosse linear e constante perderíamos o senso de positividade e ela perderia o sentido. A título de curiosidade, dê uma olhada nos índices de depressão de países com bons índices de desenvolvimento humano. Faça uma análise crítica.

Falando em armadilha, é muito comum que se confunda estados de euforia com felicidade. O uso de drogas, prescritas ou não, sexo e excessos são as buscas mais comuns. Elas possuem um tempo de atuação tão curto e raso que, se forem usados para suprir vazios profundos, além de estarem fadadas ao fracasso podem levar ao desenvolvimento de um comportamento compulsivo bem distante do objetivo inicial, uma espécie de círculo vicioso. Esses Cavalos de Tróia são muito perigosos porque são tão acessíveis quanto ineficientes.

Assim também é o dinheiro. Mario Sergio Cortella diferencia de uma forma muito interessante o fundamental do essencial. Ele diz que o primeiro é aquilo que nos ajuda a conquistar o segundo e, para explicar, responde a um dilema clássico: “o dinheiro é fundamental, mas ele não te felicita. Não se compra sexualidade, se compra sexo; não se compra amizade, se compra interesse; não se compra fidelidade, se compra reciprocidade”. O erro, segundo o filósofo, é procurar no caminho, na ferramenta, no secundário a resposta para algo que ocupa o terreno do essencial.

Se o conceito não é simples, tampouco o caminho. Todo esse tempo, a humanidade só conseguiu nos dizer o que não é ser feliz? Na verdade, acredito que o caminho para a felicidade se faz no dia a dia conforme montamos nossa própria definição. Ou seja, é no nosso íntimo que dizemos a nós mesmos o que nos torna feliz. Isso não significa voltar à estaca zero, é ainda pior. O indivíduo é quem tem que julgar que sua vida é bem-sucedida. Se libertar do julgamento do mundo entre o corpo que eu quero ter e o corpo que o mundo quer que eu tenha, o dinheiro que eu quero e o dinheiro que o mundo quer que eu tenha e lidar com as renúncias que isso acarreta. Existe um quê de liberdade nesse longo processo que, aparentemente, pode levar uma vida toda. Difícil? Claro que sim!

Qualquer pessoa tem o seu próprio conceito de Felicidade. Assim como o amor, política ou religião, cada indivíduo reúne um pedacinho de cada ensinamento da mãe, dos amigos, de textos da internet e monta seu próprio Frankenstein do saber, isso é quase positivo. Muitas delas, porém, acabam absorvendo correntes específicas, prontas, feitas por supostos especialistas ou autoridades no ramo, a fim de serem aplicadas às suas complexas, únicas e mutáveis vidas. Claro que existem ensinamentos bem úteis por aí, mas eles devem ser aplicados a uma vida cheia de reviravoltas, fatalidades, lutos e mudanças inseparáveis da vida moderna. Duas coisas eu sempre repito do espelho imaginário da consciência e que sempre me ajudam em momentos complicados: “Conheça a ti mesmo” e “Não busque ser feliz, a felicidade é só o alto de uma montanha. Busque, sim, ter uma boa vida. Essa consegue abraçar quem você é junto dos teus fracassos”.


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