22 novembro, 2016

Gamificação. A virtualização da vida

Quantas são as pessoas que estão em redes sociais e nem se cumprimentam na vida real?

gamificacao

Quando o primeiro smartphone foi lançado na década de 2000, você provavelmente não tinha ideia no que sua posterior popularização iria se transformar. Sua agenda, seus amigos, sua autoestima, está tudo suscetível ao uso de um pequeno objeto retangular que virou parte da sua vida. Não só isso, a cada dia mais ele expande e modifica a realidade, além de criar um paralelo virtual impossível de se ignorar. Antes as pessoas se conheciam e então se conectavam. Hoje, a conexão vem antes e seus elementos são pra lá de subjetivos. Quando se faz parte de um universo virtual, ele acaba fazendo um pouco parte de você. Onde será que fomos nos meter?

Você já ouviu falar em gamificação? Um estrangeirismo muito na moda usado pra nomear a transformação de alguma tarefa do mundo real em jogo (game). Os mais patriotas podem usar o termo ludificação, do português “ludo”, mas soa muito mais esquisito e menos moderno. Recentemente usado no ambiente empresarial, administrativo ou em plataformas de aprendizado, esse mecanismo parece ter invadido em poucas décadas finalmente o universo afetivo. Pode reparar, cada novo aplicativo lançado é uma microrrevolução na nossa forma de se relacionar. Diga que tirei isso de um seriado de ficção ou que não se aplica a você, mas os efeitos estão por toda a parte.

Em termos didáticos, quero dizer basicamente que sua vida amorosa tem se transformado num imenso e complexo joguinho de celular. Quem nunca sentiu como se tivesse ganhando 100 pontos a cada match no Tinder, colecionando combinações como se fossem bônus e não pessoas? O aplicativo já criou inúmeras alternativas e ferramentas pra impedir que isso acontecesse, tentando fazer o usuário interagir com as pessoas com as quais combinavam, tudo em vão. Sinceramente, a culpa não é da facilidade de encontrar parceiros, mas na ambição humana de simplesmente não querer parar. É o fenômeno que chamo do “próximo melhor”. Objetivo do jogo: achar o príncipe encanado. Não, senhores, somos todas pessoas normais ali, ou tem-se isso em mente ou sua busca será infinita.

A bipartição dos dois mundos é outro fenômeno muito forte, como se fossem realidades em universos paralelos. Existem amigos e existem amigos do seu universo “gamificado”. Quantas são as pessoas que estão na sua rede de interações no Facebook, mas não têm a coragem de cruzar os olhares com o objetivo de te cumprimentar na vida real? É realmente um grande tabu para algumas pessoas, por incrível que pareça, trazer para o cotidiano seu comportamento do ambiente imaginário. Às vezes nem é culpa delas, criou-se um receio de rejeição, uma atmosfera social absurda de que quando se conhece alguém virtualmente, tomar a iniciativa de interagir no mundo aqui fora é quase um crime contra a moral.

Não existe problema nenhum com a tecnologia, não existe problema nenhum na projeção virtual das coisas, o problema está nas pessoas. Máquinas, aplicativos, celulares, elas não têm consciência. Quem tem a consciência somos nós, seres humanos. O real problema é a falta de discussão e autoconhecimento sobre como lidar com as novas formas e ferramentas que possuímos. Nossos pais não nos ensinaram, nossa escola não nos ensinou, simplesmente porque tudo isso é muito recente. Separar o real do virtual ou entender a relação entre essas duas coisas são tarefas e responsabilidades nossas agora. Cá entre nós, se pararmos para pensar, a vida sempre pareceu um jogo mesmo, a diferença é que agora está ampliada e materializada em imagens, áudios e textos na tela do seu celular.


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