1 dezembro, 2015

Portador do vírus do HIV indetectável é seguro

Desde que corretamente tratado e tomando os remédios sem falha, qualquer pessoa com HIV que esteja indetectável é segura e não transmite o vírus. Mas atenção, ao transar sem camisinha com desconhecidos, o principal risco pode ser para o portador. Entenda!

8424700636_d31882543f_bNo primeiro especial sobre o HIV que este site fez, a informação de que pessoas em tratamento e indetectáveis não transmitem o HIV chocou muitos de nossos leitores que deixaram mensagens alegando que fazíamos apologia ao sexo sem camisinha. Ledo engano: é preciso mudar a mentalidade e entendermos que as novas informações sobre o vírus podem massacrar antigos estereótipos.

Pois bem, a camisinha continua sendo a melhor forma de prevenção, mas manter-se sob alerta achando que qualquer pessoa com o vírus do HIV é um perigo não deixa de ser mentalidade retrógrada: pessoas em tratamento para o HIV e com boa adesão a ele, ou seja, sem o vírus no sangue e indetectáveis, são consideradas mais seguras que as que não sabem se possuem o vírus ou as que optaram em não iniciar seu tratamento.

É preciso, sim, entender que a relação entre positivos, seja com outros positivos ou com negativos, é possível. E que a forma de prevenção pode ser combinada, incluindo camisinha e profilaxias. Vamos as últimas notícias do assunto, em entrevista com o infectologista Ricardo Vasconcelos.

Ricardo, você já nos disse que uma pessoa com carga viral indetectável, que toma seus remédios sem falhar, não representa perigo nenhum a ninguém. É verdade?

Sim. Esta é uma afirmação que só vem sendo confirmada e reconfirmada. Agora, em julho de 2015, no congresso da International Aids Societ (IAS), um estudo chamado HPTN 052, agora completo, reiterou esta informação: não há caso de soropositivos indetectáveis no mundo que tenham transmitido o HIV. São mais de 1700 casais sorodiscordantes – quando um tem e o outro não tem – acompanhados por 10 anos sem usar camisinha. Nenhum parceiro soronegativo foi infectado pelo positivo. Repito: ninguém (leia o original em inglês, aqui).

E este estudo vem na esteira de outros, não?

Sim, o Partner é um dos mais relevantes e ainda está em andamento. Nele, cerca de mil casais sorodiscordantes transam sem camisinha. Ninguém pegou. É o mesmo que ocorreu no Opposites Attract, que investiga somente pessoas nesta situação. (Para ler o original do Partner, clique aqui, para saber sobre o Opposites Attract, navegue aqui, e leia também este estudo suíço que já compravava essa informação em 2008!)

Alguns de nossos leitores disseram que isso é apologia a não usar camisinha ou que estar indetectável não elimina completamente o vírus….

Evidente que ninguém aqui está dizendo para não usar camisinha. Ela é necessária. Estamos dizendo exclusivamente que o sujeito tratado não transmite o HIV. Basta estar indetectável, ou seja, abaixo de 40 de cópias/mL no sangue não transmite. Fim da história e é esta a verdade. O que temos que fazer é apologia para que todos que carreguem o HIV comecem o tratamento cedo. Que zerem sua carga viral. Isso também é prevenção. A camisinha é parte da eficácia. O correto seria: use camisinha e zere sua carga viral. Cuide de você e não transmita a ninguém.

E se o cara tem HIV, ele está em tratamento com a carga viral indetectável e aconteceu de ele ter sexo casual sem camisinha. Ele avisa ou não o parceiro?

Se ele estiver realmente indetectável, fazendo tudo direitinho, não vai transmitir. Um paciente meu que tenha HIV e me ligue dizendo “.Ontem eu peguei um menino na balada, trouxe ele pra casa, transamos sem camisinha e estou desesperado achando que ele tem que tomar profilaxia. O que eu faço?” Eu irei perguntar: “Você está tomando direitinho o remédio?”. Se ele me disser que sim, vou olhar no prontuário a última vez que ele colheu exames para ter a certeza de que ele está indetectável. Então a resposta é clara: ele não precisa fazer nada porque ele não transmitiu o HIV.

Então ninguém corre risco?

Falando de transmissão do HIV? Nenhum. O risco se dá pelas muitas outras DSTs. Sífilis é a pior de todas, e ainda tem clamídia, gonorreia, hepatite C… Cabe ao que não tem HIV exigir a camisinha sempre. E cabe ao que tem lembrar que pode pegar outras doenças e por isso também exigir camisinha.

Aliás, a sífilis tem sido um problema, não?

Sim, estamos desde 2000 com a incidência dela aumentando exponencialmente. O sexo está mais fácil, há os bate-papos e aplicativos como Grindr ou Hornet. A facilidade para encontrar aumentou o número de parceiros de um gay conectado. E já há estudos científicos sobre isso.

Isso quer dizer que um positivo indetectável não pode sair por aí fazendo bareback, não porque não transmite o HIV, mas por outras doenças, certo?

Exato. Ele não vai transmitir o HIV. Mas não está livre de outras doenças. Porém há um fato pouco falado e que dá medo em todos os infectologistas: o vírus resistente.

Como assim?

Não existe só um tipo de HIV no mundo. E sabemos que a quantidade de vírus resistentes aos remédios disponíveis não é pequena – cerca de 10% das pessoas recém infectadas pegaram um vírus que já não morre com qualquer antirretroviral, em São Paulo. A resistência viral pode ocorrer no vírus daqueles indivíduos positivos com má adesão ao medicamento, e se depois disso acontecer ele transar sem camisinha, pode transmitir um vírus já resistente. Então, você que tem HIV e está tudo ótimo no tratamento não pode sair por aí fazendo bareback. E não somente pelas outras DSTs, não. Mas imagine que cada vez que achar outro parceiro também com o HIV você terá 10% de chance de ele ser um parceiro com vírus resistente. E então você tem uma superinfeção, uma nova infecção em cima de infecção antiga. E terá que mudar todo o seu tratamento, tomar remédios mais fortes e complicar sua vida.


Você está na parte 2 de nosso Especial sobre o HIV, leia as demais partes, é fundamental!

Parte 1: Especial UAA: precisamos falar sobre o HIV

Parte 2: A verdade: portador do vírus do HIV indetectável não transmite o vírus

Parte 3: Por que você pode namorar um soropositivo e a vida de dois positivos juntos

Parte 4: Por que todos devem começar o tratamento ao serem diagnosticados com o HIV

Parte 5: Dúvidas dos leitores: do sexo oral a efeitos colaterais dos remédios contra o HIV

Parte 6: As novidades do tratamento e por que um homem com HIV pode ter filho sem transmitir o vírus