13 março, 2017

A Cinderela não dorme na sua história

Boa Noite Cinderela volta a assustar e relatos chegam aos consultórios médicos. Fique atento, denuncie e saiba como se manter acordado

Conversando com um amigo delegado semana passada, concluímos que, desde o início da história da humanidade, a maioria dos crimes cometidos pelos seres humanos gira em torno de um grupo pequeno de tipos de delitos.

Assassinatos, violência a terceiros, roubos e fraudes, e todas as possíveis combinações entre eles. Existem também os ex-crimes, como o adultério, e os novos crimes, como os cibernéticos.

Em nenhum desses crimes, no entanto, as vítimas se culpam pelo que sofreram.

Nessa história dos delitos, alguns crimes entram e saem de moda, como é o caso do antigo golpe Boa Noite Cinderela, em que a vítima é dopada sem perceber, para que o criminoso consiga o que pretende com ela: roubo ou sexo não consentido. Nas últimas décadas, a técnica e as drogas utilizadas para dopar a vítima se refinaram a ponto de conseguirem mantê-la acordada, calma, obediente, capaz de informar coisas importantes, como a senha do banco ou o endereço de sua casa, e ao mesmo tempo com absoluta amnésia posterior sobre o ocorrido.

Desde o ano passado em São Paulo o Boa Noite Cinderela entrou na moda novamente, e o número de golpes aplicados explodiu em poucos meses. Quase todos ocorrendo na região central da cidade e na maioria das vezes entre gays, os casos agora se distinguem das ondas anteriores por ocorrerem também entre jovens e não apenas entre aqueles com mais idade. Todas as vítimas dos últimos meses acabaram com suas contas bancárias, seus pertences, e alguns até com suas casas saqueadas.

Infelizmente, não demorou muito para aparecerem os primeiros pacientes no consultório contando que haviam caído no golpe, mas o que mais me preocupou foi que todos eles quase que se culpavam em seus discursos pelo crime sofrido. Diziam algo como “também… é isso que dá sair com um cara que conheceu no app de encontros ou com parceiros casuais que conheceu na balada”.

Essa maneira de encarar a situação é ruim em todos os seus aspectos pois, primeiro, ao se considerar que existe merecimento em sofrer um golpe como esse, a vítima acaba enterrando sua autoestima num lugar de onde levará algum tempo para recuperar.

Depois, a culpa paralisa a vítima e impede que as devidas medidas sejam tomadas frente à situação, como é o exemplo do boletim de ocorrência e o exame de corpo de delito, únicas maneiras de se registrar de maneira oficial que uma nova onda de crimes está ocorrendo, passo fundamental para que as ações de controle de novos casos sejam feitas, e de se obter amparo legal na luta pelo ressarcimento do dinheiro roubado das contas bancárias.

Não relatar o golpe ocorrido é ainda pior quando pensamos que, nos casos em que ocorre sexo não consentido, as profilaxias medicamentosas para doenças sexualmente transmissíveis não serão administradas, apesar de indicadas em caráter de urgência.

Ninguém merece cair num Boa Noite Cinderela da mesma forma que nenhuma vítima de estupro pode ser culpada por isso. Não buscar ajuda e nem registrar o boletim de ocorrência depois de um golpe desses é sofrer sozinho e se penalizar por algo que não se fez. Esse golpe é um crime e a pena deve existir apenas para o agressor.

Todo cuidado é bem-vindo para prevenir surpresas ruins, principalmente num momento de explosão dos casos do golpe. Tenha certeza que a pessoa do app existe de verdade, com perfis convincentes em redes sociais, com emprego real, referências e meios de contato verdadeiros, antes de marcar um encontro. Desconfie de inconsistências nas histórias contadas. Fique atento ao seu copo 100% do tempo em que estiverem juntos, e não aceite bebidas de quem não conhece. Nas baladas, fique junto dos seus amigos e formem uma rede de cuidado entre vocês, principalmente depois de alguns drinques. Reconheça quando seus amigos estão entrando numa cilada e avise-os. Desconfie de generosidade excessiva de desconhecidos. E assim será possível continuar vivendo com diversão e sem medo.

A Cinderela não dormia em nenhum momento de sua história. Ao contrário, ela foi esperta, casou com o príncipe e foi feliz para sempre.

Sejamos espertos também e terminaremos bem essa história.


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Ricardo Vasconceloscurrículo completo e contatos aqui –, formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), é infectologista do Hospital das Clínicas e trabalha no projeto PrEP Brasil, que você pode conhecer melhor clicando aqui.