22 agosto, 2017

Quem disso usa, disso cuida

PrEP com Truvada? Sim, é preciso de acompanhamento médico. Aqui, tudo que você precisa saber

Como era de se esperar, a partir do momento que mais e mais pessoas no Brasil tomaram conhecimento da PrEP e de como ela funciona, a busca pela estratégia não para de crescer. Mas o que nem todos entenderam (ainda) é que uma pessoa que entra em PrEP tem responsabilidades para que tudo fique bem com sua saúde.

Pra quem não sabe, PrEP é a sigla em inglês para Profilaxia Pré Exposição, nova estratégia de prevenção do HIV, disponível e indicada para quem não consegue só com o uso consistente da camisinha se manter livre do vírus. Trata-se do uso diário de um comprimido com a combinação de antirretrovirais – conhecida comercialmente como Truvada – por pessoas soronegativas para que continuem soronegativas para o HIV.

No Brasil temos a implementação da PrEP como estratégia pública de prevenção já aprovada e publicada no Diário Oficial, com previsão do início das atividades do projeto para o fim do ano. Entretanto, quem deseja investir na sua prevenção já pode comprar o medicamento em farmácias especializadas.

Segundo trabalho apresentado na Conferência Internacional de HIV de Durban/África do Sul em 2016, nos Estados Unidos, onde a PrEP já é utilizada desde 2012, houve um aumento de 738% no número de prescrições mensais de Truvada para PrEP em levantamento feito até 2015. Com a maioria dos seus usuários homens, brancos, com mais de 25 anos de idade e com alta renda mensal, os Estados Unidos enfrentam problemas para fazer a PrEP chegar aos grupos mais vulneráveis à epidemia, que são os jovens, os negros e ps gays. Lá uma pessoa interessada nessa prevenção precisa comprar seus comprimidos a preços que passam dos 1000 dólares ao mês. No Brasil, com a disponibilização da estratégia gratuitamente pelo SUS espera-se resolver essa questão.

Apesar disso, independente de onde no mundo um indivíduo estiver usando PrEP, as rotinas da estratégia devem ser seguidas para que ela cumpra seus objetivos de prevenção sem causar nenhum dano à pessoa, principalmente em relação à adesão correta aos comprimidos e à vigilância dos possíveis efeitos colaterais. Em geral, todos os estudos que avaliaram a segurança em se usar o Truvada como prevenção mostraram que os efeitos colaterais eram mínimos e pouco frequentes. Entre 10 e 18% dos que iniciam PrEP apresentam algum desconforto abdominal nas primeiras semanas, que desaparece espontaneamente.

De maneira mais grave, os rins podem sofrer uma lesão causada pelo Truvada. Isso acontece em menos de 5% dos usuários, e também se resolve espontaneamente, desde que a medicação seja interrompida assim que a alteração nos exames seja identificada. Se não for interrompida, o dano renal pode se tornar irreversível. Dessa maneira, todas as pessoas em PrEP precisam obrigatoriamente fazer exames para rastrear possíveis alterações renais a cada 3/6 meses.

Além disso, como a PrEP é indicada para indivíduos com uso inconsistente de preservativos, e como o Truvada só é capaz de proteger do HIV, as demais infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), como sífilis, gonorreia, clamídia e hepatites virais, precisam também ser rastreadas de maneira rotineira, pois somente com o diagnóstico e tratamento precoces e adequados dessas doenças é que poderemos manter as pessoas em PrEP saudáveis e chegar a um controle da transmissão dessas doenças dentro de suas comunidades.

A razão de escrever esse texto agora foi a internação de um rapaz de 20 e poucos anos com insuficiência renal em São Paulo, na UTI de um hospital em que trabalho. Ele começou a tomar Truvada para PrEP há quase 1 ano e decidiu não colher nenhum dos exames solicitados desde então. Apenas seguiu tomando os comprimidos diariamente e, por azar, foi um dos que desenvolveu a lesão renal, o que não foi identificado pela ausência de rastreamento com exames. Agora terá que enfrentar uma doença renal pelo resto da sua vida.

Não podemos deixar que o mau uso de uma estratégia boa transforme a PrEP em algo ruim para ninguém no Brasil. Esse aviso é tanto para as pessoas que pretendem iniciar ou já estão tomando Truvada, como para os médicos que acompanham ou acompanharão pacientes em PrEP.

Use PrEP com responsabilidade e seja um dos responsáveis pela virada no jogo no enfrentamento da epidemia de HIV.

PrEP é para ser bom e não ruim.


Ricardo Vasconcelos – currículo completo e contatos aqui –, formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), é infectologista do Hospital das Clínicas e trabalha no projeto PrEP Brasil, que você pode conhecer melhor clicando aqui.


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