1 dezembro, 2015

Quem espera... perde

Esqueça os velhos mitos de que dá pra esperar para tomar o remédio até a imunidade cair. A ciência comprova que muito além de não transmitir, quem começa cedo a se tratar contra o HIV ganha em longevidade

Venezuela AIDS MedicineCom base num trabalho chamado Start (detalhes neste link, em inglês), a OMS recomendou para todos os países do mundo que os soropositivos tomem antirretroviral imediatamente ao identificarem a doença. Não é só para não passar o vírus para a frente, não. A longo prazo os benefícios são muitos: a pessoa que tem carga viral detectável mantém a imunidade dela ativada contra o vírus, como se passasse a vida inteira gripada e envelhece seu organismo.

Nesta parte de nosso especial em que entrevistamos o infectologista Ricardo Vasconcelos, um debate franco sobre pacientes – ou médicos – que ainda acreditam que dá pra esperar para tomar o antirretroviral e por que você deve duvidar das velhas lendas de que a indústria farmacêutica é a única interessada que a cura do HIV não seja encontrada.

Falamos muito de quem se cuida direitinho. E quem não toma remédio? É uma bomba atômica?

Sim. O cara que tem HIV e não conhece sua sorologia ou que não toma remédios é uma bomba atômica. Porque ele tem carga viral detectável e pode infectar um parceiro. Tem gente que não aceitou tomar medicamentos ou, infelizmente, vemos médicos que aconselham o sujeito a esperar o CD4 cair para iniciar o tratamento. É uma mentalidade ultrapassada. Assim, ele bota em baixo do tapete o problema e está pondo risco em outras pessoas. Mas não somente isso, ele também não está cuidando de sua própria saúde.

Como assim?

Quem tem HIV e não se trata está fazendo uma coisa muito, muito ruim para si – além de poder infectar outras pessoas. A presença do vírus no sangue causa uma reação em nosso corpo. Sem tratamento, o vírus ganha a batalha. Hoje se sabe que essa luta precipita doenças degenerativas: imagine uma pessoa com pressão alta, ela vai ter pressão alta mais cedo só porque tem o HIV, independente de tudo parecer ótimo. Outro exemplo? Um pessoa que tem pré-disposição a ter colesterol alto e só teria aos 50 anos vai ter aos 35. Não há mais dúvidas que todo portador do HIV deva começar cedo o tratamento. E não vale também aquele discurso de que o infectado não se importa com o outro. Não é bom para o outro que ele põe em risco, tampouco para quem tem.

Um leitor nos enviou a seguinte mensagem “Discordo profundamente dessa postura de sair enfiando os antirretrovirais de imediato em todo mundo. Para a indústria farmacêutica é uma maravilha. Mas para os seres humanos eu acredito na análise caso a caso, como em quase todas as doenças. Seria bom deixar claro que há várias linhas entre os médicos, e a de entrar de imediato com os remédios para todos é só uma delas”. O que você nos diz sobre esta afirmação?

É um argumento muito forte o do Ministério da Saúde: uma comunidade tratada não transmite e, assim, se controla uma epidemia. Mas infelizmente, não é só isso. É como eu disse acima, quem toma remédios imediatamente está cuidando de sua saúde. Portanto, nos concentremos no principal: quanto menos dias de carga viral detectável um portador do HIV tiver, melhor. Quanto a indústria farmacêutica, muito se fala. Mas basta ir a um congresso para entender que isso é uma lenda urbana.

Mas não existem as pessoas que controlam melhor o vírus?

Logo que uma pessoa pega HIV a imunidade está boa. Quanto tempo vai demorar até que ela fique tão ruim a ponto de aparecerem sintomas, isso depende de cada um. Em geral demora entre cinco a oito anos. Mas existem os raros progressores rápidos, que em um ou dois anos a imunidade despenca, assim como existem os lentos, que demoram 15, 20 anos para terem a imunidade abalada. Sortudos? Mais ou menos. E vou dizer o porquê falando dos controladores de elite, que são perto de 1% do infectados. Os controladores de elite nunca vem seu CD4 cair e mantêm a carga viral indetectável sem remédios. Por muito tempo, acreditava-se que eles eram sortudos porque não transmitiam e tinham saúde de ferro, embora possuam anticorpos positivos no sangue. Hoje, sabe-se que até um controlador de elite deve tomar remédio para não envelhecer rápido. Resumo da ópera: remédio é para todos.


Você está na parte 4 de nosso Especial sobre o HIV, leia as demais partes, é fundamental!

Parte 1: Especial UAA: precisamos falar sobre o HIV

Parte 2: A verdade: portador do vírus do HIV indetectável não transmite o vírus

Parte 3: Por que você pode namorar um soropositivo e a vida de dois positivos juntos

Parte 4: Por que todos devem começar o tratamento ao serem diagnosticados com o HIV

Parte 5: Dúvidas dos leitores: do sexo oral a efeitos colaterais dos remédios contra o HIV

Parte 6: As novidades do tratamento e por que um homem com HIV pode ter filho sem transmitir o vírus