20 junho, 2017

Assunto Proibido

Na semana da Parada do Orgulho LGBT pouco se falou sobre o HIV. É preciso sair do armário sem esquecer a questão do HIV dentro dele

Eis o único carro que tratou do assunto na Parada do Orgulho LGBT

E lá se vai mais uma linda Semana do Orgulho LGBT mostrando que, no Brasil, o debate sobre os direitos e liberdades dentro da diversidade sexual é algo que está longe de parar de crescer. No entanto, percebo que é frequente a ausência de discussão sobre HIV e prevenção nesses espaços de debate.

Por que será que é tão proibido e evitado falar de HIV para população LGBT?

Sem dúvidas infecções sexualmente transmissíveis não são um assunto de que as pessoas gostam de lembrar e falar, mas no caso do HIV existe algo ainda pior e que todos querem evitar: o estigma de que LGBTs são grupos de risco para a doença.

Na década de 80, o conceito de “grupo de risco” para HIV foi criado para tentar ajudar nas ações e campanhas de rastreamento de pessoas vivendo com HIV e de prevenção de novos casos. É verdade que isso veio do fato de que desde o início da epidemia a população LGBT sempre foi desproporcionalmente acometida pelo vírus, mas a divulgação de um conceito como esse acabou tendo um resultado desastrosamente negativo e estigmatizador, uma vez que não são todos os LGBTs e nem são apenas os LGBTs que têm HIV.

Dessa maneira foi criado um carimbo social que dizia que LGBTs eram “doentes”, “impuros” e até “culpados”, e a epidemia de HIV era a constatação disso. Um conceito como esse acabou reforçando o discurso de quem era contra a liberdade e igualdade de direitos para a população LGBT, causando por fim aumento da exclusão social desse grupo.

Sabemos hoje que pensar em “grupos de risco” é um equívoco pois qualquer pessoa do mundo tem alguma vulnerabilidade ao HIV. Basta estar vivo. E sabemos que essa vulnerabilidade pode aumentar ou diminuir a depender de uma infinidade de fatores que vão desde o acesso ao serviço de saúde, a distribuição de renda de um país e a presença de leis nele que visam reduzir a transfobia, até a frequência do uso de preservativo nas relações sexuais e o tipo de prática sexual realizada pelo indivíduo.

Sabemos disso hoje, mas o estrago já foi feito. E o estigma dos anos 80 ainda existe na cabeça das pessoas.

Falando de 2017, temos no Brasil mais de 800 mil pessoas vivendo com HIV, sendo cerca de 40 mil novos casos a cada ano, distribuídos de maneira bastante heterogênea entre os diferentes subgrupos populacionais. Segundo dados do Ministério da Saúde, se entre os heterossexuais brasileiros temos uma chance de cerca de 0,5% de encontrar alguém com HIV, entre os Gays e homens que fazem sexo com outros homens esse número já passa dos 15%, e para as travestis e mulheres transexuais, chega nos 30%.

Isso mostra que o Brasil tem uma epidemia de HIV bastante concentrada em alguns grupos populacionais, e mais do que isso, a tendência dessa concentração nos últimos anos infelizmente tem sido de aumentar. Esse padrão de concentração da epidemia está intimamente relacionado com aqueles fatores que aumentam as vulnerabilidades ao HIV citados acima.

Se temos quase 1 soropositivo a cada 5 gays e a cada 3 mulheres trans, pensemos quantas pessoas vivendo com HIV estavam na Avenida Paulista na Parada do Orgulho LGBT desse ano. Agora pense quantos dos 19 trios elétricos dessa mesma Parada faziam alguma menção a essa epidemia concentrada? Apenas 1, o da Coordenação Estadual de DST/Aids do Estado de São Paulo em parceria com as ONGs Impulse/AHF. Não quero com isso sugerir que as demais demandas levantadas no evento tenham menor importância, mas mostrar como o assunto HIV é evitado nesse espaço.

Além disso, fui convidado por um grupo de médicos para tentar organizar alguma ação de saúde durante a Parada LGBT desse ano. Quando sugeri que falássemos de prevenção de HIV, a reação negativa do grupo foi imediata. “Não queremos reforçar estigmas”.

Vivemos um momento delicado pois as sequelas do estigma oitentista do HIV ainda doem, e isso faz com que seja proibido qualquer discurso sobre HIV direcionado para LGBTs. Ao mesmo tempo, assistimos nos últimos anos a um crescimento da epidemia justamente entre os LGBTs, em especial entre os mais jovens.

Como quebrar esse ciclo? Penso que da mesma maneira que se resolve qualquer problema complicado: Falando dele. De maneira clara, aberta, com embasamento científico, sem preconceitos, com vontade e procurando compreender as vulnerabilidades específicas de cada grupo.

Chegou a hora de entendermos que os LGBTs, devido às suas vulnerabilidades e peculiaridades, precisam sim de uma atenção especial no enfrentamento da epidemia de HIV, e que isso não os torna piores ou menores. Precisamos receber os discursos e ações direcionados especificamente para esses grupos chave como algo positivo e necessário. E não devemos deixar de lutar por todas as demais demandas LGBTs legais e governamentais, pois elas terão também efeito na redução das vulnerabilidades ao HIV.

Precisamos falar de maneira franca sobre HIV, reconhecer a existência do problema no seu real tamanho e usar as ferramentas disponíveis, que são muitas e boas, para enfrentá-lo. Enfim, precisamos sair do armário sem esquecer a questão do HIV dentro dele.


Ricardo Vasconcelos – currículo completo e contatos aqui –, formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), é infectologista do Hospital das Clínicas e trabalha no projeto PrEP Brasil, que você pode conhecer melhor clicando aqui.


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Aproveite e leia nosso especial sobre o HIV!

Parte 1: Especial UAA: precisamos falar sobre o HIV

Parte 2: A verdade: portador do vírus do HIV indetectável não transmite o vírus

Parte 3: Por que você pode namorar um soropositivo e a vida de dois positivos juntos

Parte 4: Por que todos devem começar o tratamento ao serem diagnosticados com o HIV

Parte 5: Dúvidas dos leitores: do sexo oral a efeitos colaterais dos remédios contra o HIV

Parte 6: As novidades do tratamento e por que um homem com HIV pode ter filho sem transmitir o vírus