27 junho, 2016

O direito à privacidade

Nos Estados Unidos, o ator Charlie Sheen vem sendo vítima do preconceito por não ter dito que tem HIV a suas parceiras – mas a verdade é que ninguém é obrigado a revelar seu status se está em dia com a medicação e usou preservativo

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Jack Mackenroth, o apresentador e nadador tem HIV e lida bem com o tema

Você já sabe que, em novembro do último ano, o ator Charlie Sheen foi a público revelar que é portador do vírus do HIV. Uma atitude corajosa e necessária que, sendo ele famoso, poderia ajudar a mitigar o preconceito. Infelizmente, meses depois, a condução de seu caso está longe de ser perfeita – ele tem sido vítima de rótulos antigos e também sido pouco assertivo nas respostas.

A verdade é que Charlie não pode ser criminalizado por ter HIV se protege suas parceiras usando camisinha, está tomando remédios e é indetectável – como este site já contou algumas vezes – leia já aqui. Cabe a um soropositivo decidir quando contar e lembre-se: em relações como o namoro, a intimidade vai dizer o momento certo. Afinal, um soropositivo medicado não transmite o vírus mesmo que não use camisinha e é considerado até mais seguro que uma pessoa que não conhece sua sorologia.

Se você duvida, saiba que não existe relato no mundo de positivos que tenham transmitido a doença estando indetectáveis. E um trabalho dinamarquês, publicado em fevereiro deste de 2015, chamado Partner, (saiba mais, em inglês, aqui) é o grande responsável por esse consenso. O Partner acompanhou cerca de 1000 casais sorodiscordantes, ou seja, um tinha HIV e o outro não. Sempre o positivo com carga viral indetectável e sempre transando sem preservativo com seu parceiro negativo. O resultado? Nenhum dos negativos pegou o HIV depois de quatro anos. Resumo da ópera: pessoas com carga viral indetectável não transmitem o vírus.

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Charlie Sheen: a condução de seu caso está longe de ser exemplar

Mesmo assim, na última semana, Sheen foi novamente a televisão dizer não ter revelado sua sorologia a suas parceiras. A mídia o massacrou com a “confissão” e os comentários em matérias são os mesmos, até em portais brasileiros: ele seria “depravado” e “merece ser processado”. O que quase ninguém comenta é que, novamente, falamos de preconceito.

Ninguém é obrigado a contar que tem HIV se está em dia com as precauções – ele só poderia ser criminalizado se fosse inconsequente de não usar a camisinha sabendo estar com a carga viral detectável.

UAA conversa então com o infectologista Ricardo Vasconcelos  – currículo completo e contatos aqui – para falar do tema e saber quando um soropositivo deve contar que tem HIV a parceiros eventuais ou namorados, e quando seria um erro não contar. E também para levantar um pensamento simples: se alguém não lhe revelar que tem HIV, pense que ela está no seu direito de preservar a própria intimidade.

Sabemos a importância de Charlie Seen ter revelado sua condição. Mas ele tem sido vítima de matérias sensacionalistas. O que está dando errado?

É bom para o mundo ver que uma pessoa que vive com HIV pode ter saúde, carreira e uma vida semelhante a de um soronegativo. Outro aspecto positivo é mostrar que não só os gays têm HIV. Entretanto, é triste ver que mesmo sendo bem-sucedido e saudável, o preconceito e a estigmatização em relação ao vírus não dão trégua. Por outro lado, parece-me sim que ele tem conduzido mal a situação, passando mensagens erradas sobre o HIV, por exemplo, quando abandonou o tratamento para tentar terapias alternativas. A mídia percebe essa inconsistência de posicionamento e a explora como sua fraqueza.

A verdade é que se ele usa camisinha e toma medicamentos, não transmite o vírus a ninguém. Ou seja, ele está no direito dele de não revelar que tem HIV, certo?

Certinho. Mantendo a doença sob controle com os antirretrovirais, com carga viral indetectável, o Charlie Sheen não oferece nenhum risco de transmissão. Costumo dizer que fazendo isso o indivíduo está atingindo todas as metas propostas em relação ao HIV, pois não ficará nunca doente com AIDS e nem será responsável por um caso novo de infecção pelo HIV. Essas são suas duas únicas obrigações.

No meio gay, especificamente, muitos já ouviram histórias de pessoas que não contaram aos parceiros. Elas estão no seu direito?

Muitos gays costumam pensar no HIV e nas DSTs somente depois da hora que realmente deveriam. É comum pessoas me procurarem buscando a Profilaxia Pós Exposição – a “pílula do dia seguinte” – depois de uma relação desprotegida com um parceiro casual. Ouço sempre: “Ah, mas você acha que eu vou falar disso com o cara com quem eu quero transar?”. Eu penso que se existe alguém para quem faz sentido você perguntar sobre o risco de aquisição de uma DST é justamente o cara com quem você vai transar.

E se elas tiverem certeza de que transaram com um soropositivo?

Por falta de conhecimento sobre o assunto, as pessoas se desesperam ao saber que o parceiro era um soropositivo. Mal sabem eles que um jeito bastante eficaz para se proteger do HIV é justamente transar somente com parceiros soropositivos para HIV com a doença controlada e com carga viral indetectável – leia mais sobre isso aqui.

Sendo didático: se a pessoa está indetectável e usa camisinha, não transmite. E expor-se a preconceito ainda é um risco, não?

Se há uma coisa que não mudou nada nesses 36 anos de epidemia de HIV é o preconceito e o tabu que existe em torno do assunto. Já é possível manter o HIV controlado, sem causar risco significativo de se transmitir por via sexual tomando apenas 1 comprimido ao dia; já é possível uma mulher vivendo com o HIV em terapia antirretroviral adequada ter um filho saudável livre do vírus. Mas não é possível ainda revelar ser portador do HIV sem que alguém em algum momento faça um julgamento equivocado.

Quando um soropositivo deve contar que tem HIV a um parceiro? Qual o melhor momento e o que você sente em sua experiência?

O diagnóstico da infecção pelo HIV é uma intimidade da pessoa, e como tal, elas não devem ser mostradas para qualquer um. A hora de revelar é aquela em que o parceiro já está intimo suficiente para merecer lhe conhecer. Mas é importante repetir que, até que essa hora chegue, a camisinha e o tratamento adequado atingindo a carga viral indetectável são obrigatórios para que não haja risco de transmissão do vírus. E nem haja motivo para desespero após a revelação.

Decidido revelar, como fazer?

Acho importante fazer esse processo de revelação com todas as informações técnicas e científicas para não deixar espaço para a desinformação, porque é dela que nasce o preconceito. Sempre falo aos meus pacientes para virem contar em meu consultório, comigo do lado (risos).

E quem não sabe se tem HIV, como se portar?

A pessoa portadora do vírus ainda não diagnosticada é um problema na dinâmica da epidemia pois, sem saber que é soropositiva, ela se comporta como um soronegativo, sem achar que pode transmitir uma doença se transar sem camisinha, pois sua carga viral é detectável e ela ainda não faz tratamento.

Por outro lado, pessoas que não se tratam e não usam camisinha podem ser “bombas transmissoras”. Podem ser criminalizadas?

Pessoas que conhecem sua soropositividade, não fazem o tratamento de propósito para manter o risco de transmissão sexual e transam de propósito sem camisinha com a intenção de transmissão do vírus são, de fato, pouquíssimas. E se denunciadas serão condenadas de maneira dura pela justiça brasileira. Mas relembro, esse é um grupo muito pequeno. E não é o caso do Charlie Sheen, que sempre protegeu quem saía. Seria processado por quê?


Leia também…

Sete coisas para o tornar o sexo mais seguro – mesmo sem camisinha


Especial HIV do UAA em seis partes…

Parte 1: Especial UAA: precisamos falar sobre o HIV

Parte 2: A verdade: portador do vírus do HIV indetectável não transmite o vírus

Parte 3: Por que você pode namorar um soropositivo e a vida de dois positivos juntos

Parte 4: Por que todos devem começar o tratamento ao serem diagnosticados com o HIV

Parte 5: Dúvidas dos leitores: do sexo oral a efeitos colaterais dos remédios contra o HIV

Parte 6: As novidades do tratamento e por que um homem com HIV pode ter filho sem transmitir o vírus