13 julho, 2017

Autoteste e HIV: Brasil vs Canadá

Você faria o teste de farmácia para o HIV? Sim, é um avanço na prevenção contra o HIV, mas nem todos os países o adotaram. Entenda!

Recentemente foi aprovada a venda do primeiro kit de autotestagem de HIV nas farmácias do Brasil. Pra quem não sabe, esse processo já estava se arrastando há bastante tempo na ANVISA, a agência que regulamenta o uso desse tipo de produto no país.

Como estou morando por uma temporada em Vancouver, procurei me informar sobre como anda esse assunto por aqui, já que o Canadá é considerado uma referência mundial em saúde púbica de qualidade, e a minha surpresa foi descobrir que o uso do autoteste não é permitido ainda. Dessa forma, essa liberação no Brasil deve ser entendida como mais um importante passo na luta contra a epidemia de HIV.

Você faria o autoteste de HIV?

Autoteste para HIV é uma nova tecnologia para testagem e rastreamento de infecção por HIV em que, no momento que escolher, o próprio usuário coleta o material que será usado para o teste (que pode ser saliva ou sangue a depender do kit), realiza sozinho os procedimentos do teste e interpreta, dentro de 20 minutos e de maneira bastante fácil, seus resultados. Com privacidade, sem a necessidade de um pedido médico, de comparecer a um centro de testagem e nem encarar um profissional da saúde.

A utilização dessa nova tecnologia passou a ser recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde o ano passado e tem como objetivo ampliar a cobertura de testagem para HIV entre pessoas que não são alcançadas pelos serviços e campanhas de testagem tradicionais. Com isso, pretende-se aumentar o diagnóstico da infecção entre as pessoas que ainda o desconhecem e vinculá-las ao tratamento adequado, para que se mantenham com saúde e deixem com isso de serem potenciais transmissores do vírus. A OMS estima que 40% das pessoas que vivem com HIV em todo mundo ainda não foram testadas.

As razões no Brasil para que algumas pessoas não busquem as opções de testagem tradicionais são inúmeras e vão desde questões como horário de funcionamento dos centros de testagem incompatível com o trabalho, distância do centro de testagem, até estigma percebido ao comparecer a um desses centros, discriminação/falta de preparo ou acolhimento por conta dos profissionais da saúde e medo de encontrar um resultado positivo. Nesse sentido, não importa qual o motivo para uma pessoa fugir do teste, para qualquer obstáculo desses deve haver empenho para que seja derrubado. E a possibilidade da realização da autotestagem em um país certamente resolve boa parte dessas questões.

No Brasil o kit já aprovado para venda por 60 reais/unidade utiliza uma gosta de sangue para a testagem, mas existe já implantado em Curitiba e em fase de implantação em São Paulo um projeto de pesquisa chamado “A Hora é Agora” que, com o apoio das Secretarias Municipais, disponibiliza gratuitamente kits de autotestagem que utilizam apenas um pouco de saliva, permitindo com isso, sem agulhas, sangue ou custo, uma verdadeira ampliação da testagem entre aqueles que de fato são os mais vulneráveis ao HIV.

É importante lembrar que o autoteste é um exame de triagem e que, mesmo sendo um método bastante confiável, um resultado positivo precisa primeiro ser confirmado com algum exame tradicional para que o diagnóstico de infecção por HIV seja feito.

No Canadá a liberação do uso do autoteste ainda está em fase de análise pela sua agência regulatória, mas se alguém estiver disposto, pode cruzar a fronteira com os Estados Unidos e comprar por 40 dólares (cerca de 130 reais) um kit de autoteste de saliva. Dessa maneira, infelizmente uma estratégia que visava derrubar barreiras de acesso à prevenção acaba esbarrando numa questão recorrente: o custo.

O mesmo acontece no Canadá com o acesso à PrEP. Enquanto no Brasil teremos até o final do ano a possibilidade de utilizar o Truvada como estratégia adicional de prevenção ao HIV através do nosso sistema público de saúde, aqui no Canadá somente as pessoas que contam com um bom seguro de saúde podem utilizar a PrEP, uma vez que conseguem o ressarcimento dos mais de 1000 dólares canadenses (R$ 2.800) mensais de custo da droga.

Países diferentes enfrentam de maneira diferente suas epidemias de HIV. No Brasil temos quase 900 mil pessoas vivendo com o vírus, enquanto no Canadá esse número não chega nos 100 mil.

De qualquer maneira, não podemos negar que no ano de 2017 o Brasil está, mesmo que de maneira lenta, caminhando na direção certa. Com a utilização de novas drogas como o Dolutegravir para tratamento dos já soropositivos, com a PrEP disponível pelo SUS e com a ampla utilização do autoteste (mesmo sabendo que melhor ainda seria o teste de saliva e distribuído gratuitamente) é possível enxergar que só falta agora a erradicação do estigma e preconceito em relação às pessoas que vivem com o HIV para que se tenha a real esperança de que o controle da epidemia está próximo.

E nesse último tópico, só de ver o número de pessoas que aqui informam sua soropositividade nos seus perfis de apps de encontros sem qualquer reação negativa relacionada a isso, posso perceber que temos muito o que aprender com os Canadenses.


Ricardo Vasconcelos – currículo completo e contatos aqui –, formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), é infectologista do Hospital das Clínicas e trabalha no projeto PrEP Brasil, que você pode conhecer melhor clicando aqui.


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Aproveite e leia nosso especial sobre o HIV!

Parte 1: Especial UAA: precisamos falar sobre o HIV

Parte 2: A verdade: portador do vírus do HIV indetectável não transmite o vírus

Parte 3: Por que você pode namorar um soropositivo e a vida de dois positivos juntos

Parte 4: Por que todos devem começar o tratamento ao serem diagnosticados com o HIV

Parte 5: Dúvidas dos leitores: do sexo oral a efeitos colaterais dos remédios contra o HIV

Parte 6: As novidades do tratamento e por que um homem com HIV pode ter filho sem transmitir o vírus