22 agosto, 2017

A perfeição vem da alma

A gente gasta muito tempo com dieta, academias e outras cobranças que, se não forem seguidas, tornam-se culpa. Lembre: pra ter saúde não é preciso ser perfeito

Parece óbvio. Mas para muita gente não é. Então, responda rápido: quantas pessoas você conhece infelizes indo à academia todos os dias ou se submetendo a regras alimentares malucas? Certamente muitas. Quando questionadas, em geral, qualquer um dos praticantes respondem que a academia livra do stress, e que as dietas são necessárias para tonificar ou – ahãm – deixar os gominhos sempre à mostra.

Corpo em evidência.

A verdade é que a gente anda se comportando como manadas de elefante. Todos iguais, em profundo movimento para alcançar a perfeição exibida em fotos de redes sociais. E, em tempos de narcisismo de janelinhas do Instagram, fica difícil admitir que, embora a malhação seja ótima e que é legal ter um corpo em dia, a gente muitas vezes passa dos limites. E dá-lhe duas horas na academia diariamente, incluindo o santo domingo e o feriado que também é dia. E dá lhe creme de amendoim, tapioca, ovo sem gema, whey protein e ela, a dupla composta de frango com batata doce. Ai, ai…

E assim, em vez de encontrarmos mais amigos e amores ou aproveitar a vida e os momentos de calmaria, muitos de nós saímos cansados do trabalho e encaramos mais puxar o ferro, mais isolamento e mais restrições. Quem não vai, se cobra. E ainda tem que lidar com a culpa.

Saúde não tem nada a ver com essa ser fitness.

Saúde é ter equilíbrio para ter uma boa alimentação e se permitir pequenas regalias. Saúde é saber que o corpo reclama com excessos e que descansar também é preciso – e isso está longe de ser mimimi.

Eu já caí nessa, amigos meus já caíram nessa, muitos de nós vivemos caindo nessa. E que bom que a gente cai. Porque um dia a gente envelhece e nota que podia ter lido mais, visto mais filmes, saído pra jantar mais e visitado gente que se ama mais. Tudo mais. Incluindo se amar mais.

E como é difícil se amar, não é?

Sim, é. Mas o dia que a gente se olhar no espelho e gostar de como realmente somos vamos permitir um pão francês sem querer descontar na academia só porque (meu Deus!) a delícia tem farinha branca, glúten e lactose. Ninguém está pedindo pra se descuidar, não me interpretem mal. O que proponho é que gente se permita não seguir esse padrão estético tão chato que precisa ser mostrado diariamente e que a gente entenda que é mais fácil ser feliz sem cobranças tão rígidas. Com barriga colada na pele – ou não.

Deste modo, se você tentar, dá pra sentir o inverno bater e ficar em casa ou dá pra ir ao parque quando o sol for escaldante. E o mais importante: quando o jantar com amigos, família ou namorado na hora da academia aparecer, vá sem medo. Ou você realmente prefere a companhia de máquinas e aparelhos estáticos todos os dias?

É preciso viver porque os dias passam muito rápido e porque é preciso admitir o inevitável: sim, partiremos todos iguais.

Eu demorei para entender o que me atrevo escrever aqui, agora. Afinal, sou humano. E assim, sem jamais deixar cuidar de mim, tentando ter uma alimentação saudável e uma rotina esportiva legal, entendi que saúde não tem a ver com perfeição, que é possível me amar sem entrar na ditadura de ser lindo, sarado e perfeito. E tudo isto, acredite, sem culpa.

Entendi, finalmente, que perfeição é ter saúde pra sorrir com quem se ama e ser feliz sem limites – esta a única coisa que não deveria ser restrita no cotidiano de ninguém. Bora tentar você também?


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