8 março, 2017

Por baixo da bandeira

Por que o gay está cada vez mais solitário e triste?

Pedro, gay, 14 anos, acaba de descobrir que o único jeito de ser aceito pelos meninos da sua escola é fingir ser quem ele não é e passar o período mais importante da construção da sua identidade vivendo uma mentira. Josué, gay, 13 anos, acaba de descobrir que o preço da sua instintiva feminilidade é ser o destino favorito das ofensas psicológicas e físicas dos rapazes de sua idade. Todos nós sabemos (e para isso não precisamos ser membros de nenhuma minoria) que sentir-se aceito por um grupo é parte do que dá sentido à vida, fonte de força pra superação de problemas. O que aconteceu com Pedro e Josué, jovens homossexuais da década de 90, quando se deram conta de que faziam parte de uma comunidade global? Viram uma luz no fim do túnel?

Um estudo americano de 2009 que explorava o ideal masculino entre homossexuais mostrou que, ao contrário de outras minorias, homens mais ligados à comunidade gay estavam menos satisfeitos com seus relacionamentos em geral. Isso mesmo, se em algum momento você se perguntou: é minha culpa ou estamos todos perdidos? Saiba que estamos todos perdidos. Os efeitos dessa quebra de expectativas abriu caminho pra uma notável fragilidade nas relações homoafetivas – sobretudo masculinas. Esses buracos acabaram sendo preenchidos por todos os clichês de sucesso estéril da nossa geração, ou seja, na ausência de uma comunidade com ideais acolhedores, as pontes foram cimentadas com estigmas de beleza, posses materiais e sexo como busca de validação.

Em vez de trazer uma ideia de refúgio ou lar, o meio gay, como é descrito na linguagem popular, acabou por se construir como uma selva de pedra, com direito a tribos isoladas e territorialistas. Se antes ser segregado poderia encontrar explicação na ignorância, agora, ser aceito pelos “seus” parece uma seleta fila de cadeiras na frente do palco, no maior estilo “você não pode se sentar com a gente”. Há uma tentativa constante de sair da periferia e chegar ao centro, ou da base para chegar ao topo. O problema é que como não existe um topo, ele precisou ser inventado.

Na prática, a sociedade fornece um padrão a ser atingido. Aqueles que alcançam esse status passam a proteger seu lugar como verdadeiras células de exclusão, uma espécie de nata temporária da comunidade gay. Esses passam a se comportar de maneira apática ou mesmo hostil com os demais. Em torno dessas células, os outros marginalizados ou almejam participar ou simplesmente tentam ignorá-la, mas nada é assim tão simples. O papel dos cúmplices é fundamental pra manutenção e divulgação desse modelo. Por exemplo: é possível que de um trio de amigos apenas dois sejam os eleitos para participarem das festas ou qualquer outro símbolo de agregação. Os dois estabelecidos, focados em se sentirem bem, ignoram com facilidade os sentimentos de rejeição que o terceiro possa sentir, porque ser escolhido é um êxtase tão grande que tudo em volta se torna coadjuvante.

Um grande trauma pode ser facilmente diagnosticado, mas uma sucessão de desapontamentos diários, como o descrito acima, são mais difíceis. Segundo alguns estudiosos na área, casos de depressão e ansiedade, têm se elevado de forma recorde acima das taxas de grupos heterossexuais mesmo em indivíduos que nasceram em locais onde os direitos homossexuais não são novidade. Resumindo, isso indicaria a presença de um incomum stress interno, dentro da própria falsa zona de conforto gay.

A jornada ainda é longa e dura, mas apesar dessa inconveniente constatação, bons ventos já sopram em meio às penumbras. Novas gerações pós-individualismo e mesmo os indivíduos antes marginalizados dentro desse corpo coletivo vêm tomando o protagonismo da cena e já sabatinam o modelo há alguns anos. O pensamento crítico sobre “o que estou fazendo com a minha vida?” surgiu após décadas de idealização até o limite. Aos poucos, perguntas vão sendo respondidas e gargalos resolvidos, mesmo que bem aos poucos pelo insistente exército de chatos auxiliados pela grande abrangência das mídias sociais.

Se eu tivesse o poder de conversar com cada um dos que veem o que vejo, pediria: não abandone a comunidade, ajude a ressignificá-la. Outros virão, por vezes sem base familiar, e precisarão de novos modelos; seja através de pessoas maduras e centradas, seja de bons conselhos, ou de mente e braços abertos – sem apedrejamentos, mas com pulso firme pra dizer as duras verdades. É ilusão acreditar que um mundo exclusivista irá trazer paz e acolhimento, que o número de fãs te traz notoriedade ou que uma pulseira vip significa prestígio real. Enquanto não houver sentimento humanitário na comunidade LGBT, de nada adianta uma lei permitir que se casem. Muitos nascerão e morrerão sem nunca terem se sentido em casa


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