12 setembro, 2017

Um mundo com mais Deborah Secco

No último mês, a atriz saiu em defesa dos gays como poucas vezes vimos. E nem ao dizer que já namorou um homossexual caiu no erro de fazer julgamento

O Brasil tem poucas lideranças gays fora de seu restrito círculo. Dá pra contar nos dedos as celebridades contemporâneas que realmente se empenham por nós. Despontam nesse cenário Bruno Gagliasso, Camila Pitanga, Leandra Leal e Taís Araújo, para citar alguns. Mas ainda estamos bem longe dos norte-americanos que tem veteranas como Cyndi Lauper ou novatas como Miley Cyrus fazendo campanhas e até criando abrigos em prol da comunidade LGBT. Pois a gente carece, sim, de um mundo em que formadores de opinião ousem sair da caixinha. Não basta ser diva gay, a pergunta é: “que tipo de discussão nossos ídolos provocam na sociedade?”

É preciso então notar as últimas declarações de Deborah Secco que, apesar de ter a filha mais amada do Instagram, a pequena Maria Flor, divulgou recentemente a capa da última Vogue Itália criada pelo brasileiro Giovanni Bianco por achar a mais linda dentre três opções – havia também um beijo lésbico e outro hétero. A atriz foi metralhada por homofóbicos. Pela tradicional família brasileira. Mas não se calou e respondeu em um vídeo dizendo “minha filha vai ser o que ela quiser” (relembre aqui). Isso tudo feito em suas redes que, somadas, ultrapassam 15 milhões de seguidores.

Vale dizer que Deborah não é uma novata em temas caros para a nossa comunidade, tanto que já interpretou uma portadora do vírus do HIV, em 2014, no belo filme Boa Sorte, dirigido por Carolina Jabor. Com a bagagem de 30 anos de carreira e em turnê pelo Brasil com o monólogo teatral Uma Noite Dessas, de Hamilton Vaz Pereira, concedeu uma corajosa entrevista à revista Veja desta semana. Os temas eram diversos: a atriz ponderou sobre uma declaração em que afirmava ter traído seus namorados, sobre assédio sexual e comentou a tal postagem da capa gay. Desacostumados que estamos em ler matérias na íntegra, a internet logo concluiu que a traição era condenável quando a artista deixa claro que não se orgulha do que fez mas que estava pondo em discussão o preconceito que as mulheres sofrem se comparadas aos homens. Se Deborah fosse homem, provavelmente não seria julgada. Sairia ilesa.

Sobre a capa gay reafirmou: “Só reproduzi porque achei linda. Mas fico preocupada com o ódio que os homossexuais despertam. Aceito que achem errado, mas não tolero quando os agridem e os insultam”. A pergunta seguinte era tão simples quanto letal: “Já namorou gays?”. “Namorei um bissexual e um gay, que eu saiba”, respondeu. Logo a imprensa lhe rendeu manchetes que se deram ao trabalho de dizer que ela “já traiu e também namorou um homossexual” – como se a união deste dois fatos fosse um pecado duplo.

Sim, Deborah chamou atenção para inúmeros preconceitos e ainda conseguiu falar com discrição e naturalidade sobre as relações que teve com gays, como tantos de nós tivemos com mulheres antes de sairmos do armário. Sobre esse fato, leu-se na web: “pra que falar disso?”.

Pra que falar disso? Por muito motivos. E o principal deles é que precisamos que minorias se unam – mulheres e a comunidade LGBT são as principais vítimas de homicídio segundo dados do último Mapa da Violência no Brasil. Outra razão é que a atriz alertou, sem cair no erro de julgar, para a possibilidade que todos têm de conhecer pessoas com receio de aceitar sua própria condição sexual. Porque provavelmente elas sofrem. Sofrem com terror da homofobia. E, como as mulheres, sofrem com o terror do machismo.

Este post é sobre vencer o machismo e a homofobia. Sobre lutar contra a desigualdade de gêneros. Enquanto isso não acontece, espero que os gays que – com razão – ainda tenham medo de revelar sua condição sexual nesse país retrógado e que por isso venham a ter um relacionamento hétero para segurar a barra, bem, espero que eles tenham a sorte de encontrar uma mulher como Deborah Secco.


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