23 agosto, 2017

Precisamos discutir por que os gays estão se matando

Não basta sermos o País que mais mata homossexuais no mundo porque não dá pra ignorar que também estamos morrendo

As notícias para a comunidade LGBT nos trópicos não andam boas. A verdade é que do lado de baixo da linha do Equador, se não existe pecado como cantava Ney Matogrosso há inúmeros pecados que fazem de nossa pátria um lugar literalmente ardente: segundo levantamento mais recente do Grupo Gay da Bahia, o ano de 2016 foi o mais violento desde 1970. Traduzindo: a cada 25 horas um LGBT é assassinado em nosso território (os campeões são os estados de São Paulo e Bahia), números que fazem o Brasil o lugar que mais mata homossexuais, trans e travestis no mundo.

É mais do que ocorre em alguns países do Oriente Médio, por exemplo. E olha que, por lá, ser gay é oficialmente pecado…

Não bastassem esses dados alarmantes, a gente não pode deixar de notar outro fato ainda não muito mensurado em estatísticas: os gays estão se matando mais. E quando não oprimidos por outros, muitos de nós acabam depressivos, inconsequentes. Presos na suposta liberdade que há muito se instituiu que, como minorias, devemos exibir. Sim, exibir.

Estamos presos. Enclausurados neste Brasil caliente de tantas dores, que finge ser igualitário e que aos poucos vai encarando o fato de ser um dos mais repulsivos às minorias. Dizem, enfim, que estamos falando abertamente deste assunto. Será mesmo?

Sim, os tempos são difíceis tendo um governo que na prática não é laico. Temos muitos retrocessos. Mas somos assassinados somente pelos misóginos, racistas, preconceituosos e retrógados? Ouso dizer que não.

A verdade é que embora o governo seja também responsável pelo aumento do suicídio entre gays – esta taxa sempre diminui em países com maior respeito às diferenças – ele não é o único fator presente neste triste calhamaço de notas. Segundo uma recente pesquisa da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, adolescentes gays são cinco vezes mais propensos a tentar suicídio do que os heterossexuais por conta do ambiente que vivem, e isso quer dizer que a sociedade e família são parte da questão. Parte, pois a novidade é que as cobranças por pertencer a grupos glamurosos e a busca por padrões estéticos foram incluídas e apontadas também como causas modernas para o suicídio de nossos irmãos. Tá bom para você?

Então vamos resumir: estamos morrendo também porque fizemos de nossa liberdade uma bandeira difícil de carregar – e é impossível ignorar os amigos ou conhecidos (em geral jovens) encontrados mortos em casa, em baladas, nas ruas.

Quantas notícias de suicídio você soube nos últimos meses? Quantas pessoas conhecidas simplesmente partiram depois de uma noite de excessos ou após consumirem suplementos além do saudável?

Na busca pela liberdade, muitos de nós vêm querendo alcançar a perfeição. Tornamo-nos vítimas de nossa própria “liberdade” e de outras coisas mais: da dieta maluca; da bomba sem limites; da noite que promete ser a melhor de vida.

Viramos reféns de ser fitness, de sermos gays – ou alegres ao pé da letra. Viramos réus de drogas, de alucinógenos, de anabolizantes, da busca pela perfeição. Viramos o retrato de um mundo que não existe e nem tão colorido como em fotos de contrastes pronunciados publicadas nas janelinhas do Instagram.

Suponho que eu não seja o único a perceber estes acontecimentos melancólicos que muitas vezes estão presentes ao nosso lado, no peito do melhor amigo. Quem sabe em si próprio?

E suponho que muitos vão culpar as baladas e apontá-las como templos de perdição ou dizer que não há nada de mau em lutar por aquele corpo-sarado-de-capa-de-revista. Balela, casas noturnas e grupos sociais, tampouco padrões de beleza são culpados por nada que a gente não tenha aceito – e ajudado a conceber.

Sim, uma dose de loucura é essencial na vida. Quem suporta gente certinha? Gente normal se arrisca, ri, vez ou outra bebe um copo a mais e infringe regras da sanidade. Mas não exageramos na dose ao ponto de parecermos discos riscados e repetitivos? Precisamos ir tão longe na busca de ideais inalcançáveis para acabarmos deprimidos e solitários?

Não, não precisamos. Precisamos entender, isto sim, que minorias não são uma categoria à parte. E que gays, por mais livres de padrões sociais convencionais da sociedade, são humanos.

Precisamos ser felizes. E a felicidade é mais simples quando leve e livre de exageros – e se você não for cético, um pouco de espiritualidade pode ajudar, por que não? Afinal, ninguém precisa ser o perfeitinho, o moderninho, o saradinho, o fashionista, o belo ou, vamos falar disso abertamente: aparentar ter mais dinheiro do que possui. A gente, lá no fundo, não precisa parecer nada e pode se aceitar como é. O que precisamos é parar de perseguir valores inócuos. Que tal?

Então, antes de você dizer que esse texto é prepotente e que quer cuidar de vida dos outros, eu arrisco dizer que a gente precisa ser amoroso. Este texto não é sobre a vida dos outros. É sobre vidas. E a gente precisa, urgentemente, rever como estamos cuidando das nossas.


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