29 agosto, 2017

Você acredita em tudo que lê? Tem certeza?

Perceber a importância da autocrítica, o poder da dúvida e a relevância das nossas opiniões é um caminho difícil, mas é o mais adequado para se combater o ódio e evoluirmos como sociedade

Contra fatos não há argumentos, certo? Infelizmente a maior parte das pessoas que escuto dizendo isso não faz a menor ideia do que está falando e usam essa frase só para minimizar algum discurso. Parece contraditório mas é natural, afinal, quanto menor for a noção da complexidade de informações que existem no mundo, mais parece fácil achar respostas falsamente abrangentes pra tudo. O que acontece quando cremos que somos portadores de alguma verdade? Atribuímos ao próximo a responsabilidade dos erros do planeta. Socialmente, se o outro é culpado de coisas ruins, a impaciência e a violência encontram terreno fértil para destilar seus venenos, fazem a flor do radicalismo brotar em cada esquina.

Anualmente, a universidade de Oxford, uma das mais importantes do mundo, elege a “palavra do ano” por meio da Oxford Dictionaries, sempre algo atual e de altíssima relevância social. Em 2016 a palavra eleita foi “Pós-verdade”. Com isso, o departamento ajudou a substantivar e trazer à luz das discussões uma sombra negra que pairava sobre nossas cabeças e que faz qualquer filósofo, sociólogo ou o menor dos amantes do conhecimento, tremer. Mas afinal, o que ela significa? A “Pós-verdade” é uma espécie de fofoca pela metade, uma mentira provável e viral. É quando os fatos passam a ser tão ou menos importantes que os boatos. Ou ainda quando você recebe, por exemplo, uma notícia falsa pelo Facebook e não se preocupa em saber a fonte porque está atrasado para ir trabalhar; acha que deixou para lá, mas aquilo ficou na sua cabeça geralmente reforçando algum preconceito que já existe ali.

Essas notícias falsas realmente têm algum impacto na vida real? Quando um homem como o Trump, que disse que o Obama fundou o Estado Islâmico, contrariou a lógica e se elegeu presidente da maior potência mundial, a gente percebe que a fé em quem fala e a descrença em quem contradiz pode ser uma forma cega e eficiente de alimentar o poder. Acha que não? Segundo o jornal “El País”, em seis meses o Republicano faltou com a verdade 99 vezes. Quem é você perante a influência de um presidente? O britânico The Economist nos conta que os apoiadores do Brexit, na época do plebiscito, circulavam notícias de que a Turquia estava na iminência de enviar milhões de imigrantes para toda a Europa. Entre uma estação de metrô e outra, você recebe aquilo e, na dúvida, fica na memória. Vai saber, né? Melhor votar pela saída do Reino Unido antes que seja tarde demais.

É fácil usar exemplos de fora, difícil é saber se o deputado Jean Wyllys, independentemente se você o odeia ou não, realmente apoia a criação de cotas para homossexuais em concursos públicos. Pergunta se a reportagem do G1 que desmentiu essa notícia falsa teve a mesma abrangência da corrente de WhatsApp que a divulgou. Claro que não! Mas aquele conservador que leu vai fazer campanha contra quem nas próximas eleições? “Existem provas consideráveis de que é mais provável que as pessoas cheguem às conclusões às quais desejam chegar” afirmava, já na década de 90, a psicóloga social israelense Ziva Kunda. Ou seja, lance o absurdo que a mente do povo se encarrega do resto.

Não tenho dúvidas de que a ignorância é um negócio que anda na moda, mas não acredito que seja a única vilã desse jogo. As pessoas estão o tempo inteiro buscando respostas, categorizando o mundo, polarizando tudo. É muito difícil sustentar uma dúvida. Nossas “verdades” e preconceitos são bem mais enraizados que imaginamos. As pessoas têm dificuldade de separá-las daquilo que acreditam, criticar uma visão política ou dogma é visto quase como uma brutal agressão pessoal. Quantos de nós realmente aceitamos que podemos mudar de opinião? A maior parte tem resquícios primitivos de proteger sua honra e família, mesmo que o assunto não tenha nenhuma interferência direta na sua vida pessoal.

Tanto em grandes democracias quanto em regimes autoritários, as mudanças, para o bem e para o mal, um dia percorreram as opiniões comuns. De salas de embarque do aeroporto da capital às balsas no Rio Araguaia, todos estamos sujeitos ao caos do bombardeio de informações que recebemos de todos os lados. Perceber a importância da autocrítica, o poder da dúvida e a relevância das nossas opiniões é um caminho difícil, mas é o mais adequado para se combater o ódio e evoluirmos como sociedade. Da próxima vez que alguém te contar alguma notícia, inclusive eu, agora, por meio desse texto, que tal perguntar “tem certeza?” e avaliar que tipo de “falsa certeza” você está realmente querendo alimentar.


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