4 março, 2016

CLUBE DE CAVALEIROS

Não tem para ninguém: com cultura ansiã e o viço da juventude, Michel Safatle é um dos arquitetos de interiores mais chiques de sua geração

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Camisa monogramada, abotoaduras de família, calça dobrada na canela como fazem os dandies de hoje, gestos delicados, humor sofisticado, educação de lord inglês – e sem o blasé do velho continente.

Aos 32 anos, o arquiteto paulistano Michel Safatle já converteu seu nome em código de bom gosto e estilo. Expoente da nova geração de pranchetas que estão ajudando a redesenhar a casa brasileira, ele se destaca pela elegância e pelo aspecto cultural forte de seus projetos (para ele, tudo tem que ter história). Quem já visitou seu escritório com cara de museu-galeria, sabe: por ali se organiza um acervo de mobiliário de época e arte de primeira que vai desde Miró, Picasso e Calder, até exemplares raríssimos de poltronas Dinucci. É quase um antiquário privê, que ele aciona para poucos e bons e injeta nos projetos bambas que assina, seja a casa de um banqueiro, de uma socialite, ou o espaço que marcará sua estreia na Casa Cor, em maio – isto sem falarmos no ambiente que fez para marcar a estreia desta coluna no Universo AA, lembra?

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O espaço que fez na Acierno para marcar a estreia deste colunista, em foto de Salvador Cordaro

Mas a chiqueria do menino vem lá do berço: aos 7 anos de idade, sua mãe, que é artista plástica, ficou sócia da Hípica. Não demorou muito para esse sujeito esguio e leve (de dentro para fora e de fora para dentro) competir em diversas categorias do esporte equestre, como o prestigiado Grande Prêmio de Hipismo – ele chegou a representar o Brasil nos circuitos internacionais.

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A galope: a paixão pela equitação também transborda para o universo visual de Safatle, que mistura épocas e estilos em efeito clássico-contemporâneo

E sem cair do cavalo, o olhar treinado para coisa boa o conduziu a prestar atenção no décor. Aos 16 anos, pediu um presente no mínimo diferente ao seu pai: um projeto assinado por João Mansur (um dos bastiões da decoração clássica no Brasil). A experiência de ser cliente do mestre (com quem firmaria parcerias anos mais tarde) foi o start definitivo para este menino hoje formado em arquitetura, área onde atua com a mesma graça de um cavaleiro europeu apimentado pelo tempero tropical que a gente adora!

Confira nosso quiz a galope:

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Trago esta rosa: Cidadão do mundo, Michel garimpa peças dos quatro cantos do planeta para saborizar tudo com um sotaque só seu. Aqui, as cerâmicas chinesas ajudam a deixar mais portentoso o hall de entrada

Nome, signo, idade, onde nasceu e o que estudou? Michel Safatle, peixes, 32 anos, paulistano. Formado em Arquitetura e Urbanismo pela FAAP.

Profissão? Arquiteto de interiores.

Cadeira predileta? Transat chair, desenhada pela Eileen Gray.

Um prédio / construção inesquecível? O prédio que hoje abriga o museu Tate Modern, em Londres. Sempre me emociono com ele.

Livro de cabeceira. “O pequeno tratado das grandes virtudes”, escrito por André Comte.sponville, um filósofo francês.

Se fosse um super-herói, seria o… Nunca fui muito dessa turma.

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Negócio da China: Se Deus está nos detalhes, Safatle não descuida deles nem por um segundo. Seu mélange plasma os acessórios mais raros, entre porcelanas orientais, caixas de época e castiças de cristal

E quem são os seus super-heróis da vida real?  Meu pai – por me ensinar, sempre da maneira mais carinhosa, a disciplina e os valores necessários para enfrentar a vida; Minha mãe – por me fazer questionar, com a sua personalidade amorosa e bem humorada, este rigor; E meu cavalo “marco”, animal com o qual conquistei os mais importantes títulos da minha carreira como cavaleiro.

O projeto predileto que você desenhou até hoje? Tem sido, de maneira geral, o meu projeto de vida.

O melhor arquiteto do Brasil é…  Paulo Mendes da Rocha.

E o melhor do mundo? Acompanho e respeito muito o trabalho realizado pelos grandes arquitetos orientais, como o Tadao Ando.

O melhor designer do Brasil é … Admiro a trajetória da família Lourenço, de Glória a Reinaldo, passando pelo filho, Pedro.

E o do mundo ? Hedi Slimane, atual diretor criativo da Yves Saint Laurent.

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Luxo, poder e riqueza: do mármore imponete até a fotografia superdimensionada da vida urbana, Michel está de portas abertas para o mundo

Se você não fosse arquiteto / designer, seria … Jamais cogitei esta hipótese… Tenho uma visão extremamente arquitetônica do mundo!

Sua primeira referência de décor na infância foi… O pé-direito altíssimo e todas as demais proporções – bem particulares – da casa onde passei grande parte da minha infância, projetada por um celebrado arquiteto italiano.

Na sua casa não pode faltar … Minha coleção de livros e revistas

E o que não pode faltar na casa do seu cliente? Os elementos que compõem e traduzem o universo dele, coordenados através do meu olhar.

Qual o maior pecado estético que identifica no design contemporâneo ? A supervalorização do efêmero.

Seu lado mais chique gosta de … Mies van der rohe.

E seu lado cafona gosta de… Artacho Jurado.

O que é mais importante: forma, função ou poesia? Poesia é o nome que se dá ao encontro da forma com a função.

Matéria-prima fetiche? Espelhos.

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Não quero dinheiro: O cifrão de Andy Warhol se destaca neste living que mostra a equação mobília contemporânea + antiquariato que Safatle faz como ninguém

O que precisa ser varrido para debaixo do tapete?  Absolutamente nada. Comunicativo por natureza, estou sempre aberto a todos os tipos de discussão ou de reflexão, desde que eles tenham, como objetivo principal, a construção de algo maior.

Qual móvel brasileiro merece uma reedição? A cadeira “estrutural” do Geraldo de Barros, justamente por ela reunir a elegância e a simplicidade tão características da obra deste artista fabuloso.

Uma coisa bonita? A impressionante obra do artista indiano Anish Kapoor.

Uma coisa feia? Meias brancas.

Qual o elemento mais bacana para dar uma tapeada no décor sem grandes malabarismos? Cor. Uma lata de tinta é capaz de grandes transformações.

Quais os traços que mais desaprova em si mesmo?  E quais os traços que mais desaprova nos outros ? Após anos e mais anos de terapia, aprendi a lidar bem com a grande maioria das minhas características… e também com as dos outros.

Qual a sua maior extravagância ? Conviver e trabalhar apenas com quem eu realmente admiro.

Em que ocasiões você mente? Ao preencher os cartões da alfândega – única e exclusivamente. Sou bem conhecido pelo sincericídio …

Um filme que vale a pena ver de novo : “A single man, dirigido pelo estilista Tom Ford.

Uma música para malhar “Don’t stop’till you get enough”, do Michael Jackson.

Uma diva?  Andrèe Putman. Um divo? Yves Saint Laurent.

Quem tem estilo? Minha avó libanesa, Wanda: uma mistura irresistível de carisma, educação e elegância.

Seu lema de vida? … a vida é muito curta para ser pequena …

Qual o lugar mais lindo que já visitou ? Saint – Jean – Cap – Ferrat, no sul da França.

Quais as 5 peças de design que você levaria para uma ilha deserta ? Uma day.bed Eileen Gray; uma obra de arte Kaleidoscope, de olafur eliasson; uma luminária de piso Fortuny, veneziana, revestida com folhas de prata; um oceano trunk, desenhado pela Andrèe Putman, em 2007, e produzido pela empresa poltrona Frau; meus óculos escuros com perfume vintage, assinados pela inglesa Cutler and Gross.

Uma dica para quem quer decorar a casa com muito estilo e pouca grana? Aposte no garimpo das peças, frequente feiras de antiguidades e leilões. Já realizei grandes aquisições, nestes contextos.

A arquitetura brasileira precisa de … Planejamento, assim como todo o nosso país.

O design pode salvar o mundo?  Bien sûr! Estamos aqui justamente para isso

Ontem, hoje ou amanhã? Meu coração bate sempre forte pelo passado. Meus pés permanecem, firmes, no presente. E meus olhos, curiosos, me guiam para o futuro.


 

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