9 novembro, 2015

Acima de tudo, o amor

Rogério Koscheck e seu marido, Weykman Padinho, adoram quatro crianças negras. Três delas com anticorpos do vírus do HIV herdado da mãe biológica. A história mostra que o afeto superou o preconceito

unnamed

Rogério Koscheck e seu marido, Weykman Padinho: eles acreditam no amor

Desde que adotaram quatro irmãos negros – três deles com anticorpos do vírus HIV herdado da mãe biológica – Rogério Koscheck e seu marido, Weykman Padinho, vivem como uma família completa. O vírus, aliás, nunca foi problema para o casal, que adotou as crianças cientes de que elas poderiam tê-lo. Por sorte, tratando corretamente e de modo precoce, eles viram, de modo quase milagroso, que suas crianças não herdaram o vírus e foram todas negativadas, como manda o protocolo.

Em meio a agenda lotada de compromissos, desafios e desdobramentos para dar conta do quarteto, o casal fez presença na décima edição do Sorriso do Bem, evento anual da ONG Turma do Bem que UAA cobre in loco, no qual Koscheck palestrou em uma mesa sobre preconceito velado.

Voltando no tempo: em 2013, quando adotou as crianças, Rogério teve dificuldades em tirar a licença de trabalho. Na época, o fato repercutiu, e o casal então entrou na Justiça e conseguiu o direito ao período. Agora, em outubro, ele fundou a ABRAFH, Associação Brasileira de Famílias Homoafetivas.

Em São Bento do Sapucaí, entrevistamos o casal e soubemos um pouco mais do processo de adoção, do dia a dia da família e das adversidades que existem e que podem aparecer. A entrevista inspiradora, você confere abaixo.

É verdade que as crianças não contraíram o vírus do HIV?

Rogério Koscheck: Quando nós os conhecemos e a assistente social e psicóloga nos passaram a situação de saúde. Três menores herdaram anticorpos do HIV da mãe e naquele momento que nós os conhecemos, a de quatro anos já tinha negativado, feito o tratamento e considerada até um milagre pelos próprios médicos da divisão de infectologia. O menino já tinha encerrado o tratamento. Na época ele estava com um ano e seis meses. Já tinha encerrado o tratamento e não tinha feito os exames. A bebê estava no começo, tomando o AZT. Depois, tivemos a felicidade de ver o Luiz Fernando, menino, negativar. E há dois meses, no último exame de Ana Cláudia, a mais nova, ela também negativou. Hoje temos todos pleno gozo de saúde, sem qualquer problema.

Vocês já sofreram algum tipo de violência por serem um casal gay?

Rogério Koscheck: a gente respeita muito as pessoas, a gente acha que pra ser respeitado, tem que respeitar. Nunca sofremos nenhum preconceito direto, mas percebemos alguns olhares quando estamos mais juntos. Com as crianças também a gente já percebeu que algumas pessoas olham com aquele olhar meio atravessado. Mas nada tão direto. Nunca sofremos violência. Nem física nem verbal. Nos últimos três anos a gente tem sentido uma solidariedade principalmente em relação às crianças. Não escondemos nada. O que a gente já sentiu foi um preconceito com as crianças, mais por elas serem negras. Preconceito que a gente não admitiu, fomos radicais. Contrapondo ao que falaram no momento. É inaceitável qualquer constrangimento com nossos filhos. Não há necessidade da pessoa conviver, querer ter carinho por nós, mas respeitar é fundamental.

Como você vê a política tentando definir o que é família?

Rogério Koscheck: sou o presidente da ABRAFH e para nossa associação, o que você dizer que é família, é família. Se vocês consideram que a afetividade que os une é uma família, então é uma família. Esses fundamentalistas que tentam impor à sociedade um modelo que nem eles mesmos pregam. Porque se passar no congresso dificilmente vai achar o modelo que eles aprovaram, e a gente sabe que são fundamentalistas religiosos, o que é pior ainda. Se a gente verificar ao pé da letra o que foi aprovado no projeto do estatuto da família, a família que eles dizem tanto proteger não é contemplada por esse projeto. A associação defende o projeto do estatuto das famílias, da senadora Aridice da Mata, em que todas as composições são aceitas e respeitadas e consideradas pela sociedade. Esse é o ponto importante. Eles estão tirando proteção jurídica de crianças e adolescentes que estão nessas famílias, e isso é inadmissível, inconstitucional. As causas verdadeiramente pétreas da nossa constituição são aquelas que estão ligadas a crianças e adolescentes. A partir do momento em que há um projeto para tirar proteção jurídica dessas crianças é inconstitucional. Não podemos admitir que eles joguem isso para a plateia deles, pros seus dizimistas, seus eleitores uma coisa muito séria que é um desrespeito, talvez, a mais de 75% das famílias brasileiras.

Quais os mecanismos que vocês pretendem usar para garantir os direitos e a voz para essas famílias?

Rogério Koscheck: nossa busca é mostrar que todas as famílias são comuns. Temos um conselho jurídico altamente expressivo, com as maiores sumidades do brasil em direito de família. Estamos ampliando também para a questão civil e criminal porque a gente entende que há questões jurídicas que tem que ser enfrentadas. A associação como uma entidade formalizada e apta para acionar o ministério público, a polícia militar, a receita federal, o ministério do trabalho, da saúde, nas causas em que qualquer pessoa de uma família homoafetiva não é contemplada. O direito de exercer a cidadania que não é contemplado por muitos de nós, principalmente por nossos filhos, pelas crianças e adolescentes. É uma violência extrema a criança não poder tirar CPF porque ela não tem mãe, ela tem dois pais. É uma violência com a criança. Os pais não poderem tirar sua licença adotante não é uma violência com os pais, é ua violência com as crianças que deixam ter o vinculoafetivo criado e mantido. Nós não vamos barrar qualquer esforço para que a gente consiga que todos os direitos sejam iguais. Não queremos direito a mais. Os filhos das famílias homoafetivas querem ser tratados como filhos de qualquer família.

Como foi o processo de adoção das crianças e como foi a aceitação delas?

Rogério Koscheck: o processo de adoção se divide em duas partes. A primeira é a habilitação de quem deseja adotar e o segundo processo é da adoção. No primeiro momento fomos cheios de dúvidas se iríamos adotar individualmente, se eu teria que adotar um e meu marido o outro. Uma grande surpresa foi quando logo de início a assistente social disse que o processo era um só, para o casal. Fizemos todas as reuniões preparatórios para o processo administrativo, não tivemos qualquer problema em relação a isso. Mostrávamos claramente que estávamos ali adotando. Passamos para o processo efetivo com toda a apresentação de documento, laudo psiquiátrico, mental, financeiro, recebemos visitas de assistente social, psicóloga. Fomos contemplados por todos os itens e conseguimos a habilitação. Quando nos foi apresentado que as crianças estavam disponíveis para a adoção e nós conhecemos, uma nova etapa começou. Iniciamos o estágio de convivência, com visitas semanais, depois com finais de semana passando conosco, para finalmente a gente ter a guarda. Tivemos todo o apoio do corpo técnico quanto jurídico da vara da infância e juventude. Não sentimos qualquer discriminação. O processo foi rápido, sereno e tranquilo.

Weykman Padinho: a vara da infância, as assistentes sociais e as psicólogas estavam voltadas para as crianças, então elas viram que é uma família comum, que tem condições emocionais e financeiras para cuidar dessas crianças e deram o aval para a gente.

Rogério Koscheck: um homem e uma mulher que resolvem ter filhos não passam por qualquer avaliação, qualquer um pode ser pai, mãe. Não estou dizendo que esteja errado, as crianças já existem. Elas tem que ser recebidas e tem que receber aqueles que tem condição de cuidá-las e de amá-las.

Como é o dia a dia da família?

Rogério Koscheck: Não é fácil, são quatro crianças com demandas muito diferentes. Temos uma menina com doze anos, pré-adolescente, que já virou mocinha e que gosta de filmes, de leitura, de sair, de estudar. Temos que estudar com ela porque ela trouxe lacunas terríveis da péssima formação de base. Temos uma menina com 4 anos, um menino com 3 e uma menina de um ano e meio. São demandas muito diferentes, em todos os sentidos. Nos dividimos muitas vezes, não dá para atender todos ao mesmo tempo.

Weykman Padinho: a gente divide as tarefas, são quatro crianças. Eu posso trocar fraldas, ele pode trocar. Eu posso fazer a comida, ele pode fazer.

Rogério Koscheck: a gente recebe de amigas a pergunta “quem é o pai e quem é a mãe”. Papéis que a sociedade impõe de alguma forma que muitas mulheres que reclamam desses paéis continuam impondo, perpetuam essa situação. Eu sou pai, eu sou mãe. Ele é pai, ele e mãe. Inclusive vamos lançar uma campanha para que o segundo domingo de maio seja o dia das mães e dos pais e o segundo domingo de agosto seja dia dos pais e das pães.

Como vocês dois pretendem lidar com o preconceito que as crianças possam sofrer?

Rogério Koscheck: essa é uma coisa que nos preocupa bastante. A mais velha faz terapia desde que está conosco para acompanhar a situação. Tivemos muito cuidado na escolha da escola das crianças. Encontramos uma inclusiva. Nossos filhos são negros. Nela já existia um percentual razoável de negros e pardos, já existia 6 crianças adotadas, três delas com duas mães. Dissemos que mudamos as estatísticas da escola (risos). Essa preocupação é grande. Toda a forma de preconceito é inadmissível, seja por ser negra, mulher, gordinha, por estar atrasada na escola, por ser adotada e por ter dois pais. Não tem que admitir. Nós não admitimos. Não tivemos qualquer ação física ou verbal extramente expressada, mas seremos categóricos em combater qualquer forma de preconceito ou discriminação que elas venham a sofrer.

Weykman Padinho: o que tentamos passar dentro da associação é que só se muda com convivência, contato e respeito. Não dá pra ficar dentro do armário.

Rogério Koscheck: Inclusive na associação um dos projetos é que todas as famílias saiam do armário. Nós já saímos. Temos que nos mostrar. A sociedade tem que ver novos modelos. Os pais de filhos gays tem que ter uma visão de serenidade, de projeto de vida, não pensar que o filho vai ser promíscuo, só vai pra balada, só vai pra parada. Não é isso. Todos somos comuns, temos os mesmos anseios. A única diferença é que um homem escolhe outro homem pra viver. Qual o problema disso?

Eles vão longe, então?

Rogério Koscheck: Eles vão aonde eles quiserem!


 

O repórter Allan Correia viajou a convite da ONG Turma do Bem para o Sorriso do Bem 2015, confira as outras matérias deste especial nos links abaixo:

Fábio Bibancos diz que a família careta saiu do armário

Eduardo Jorge fala sobre o conservadorismo e responde se se casaria com um homem

Condolesa da França fala sobre racismo e homofobia

Quer saber como vivem os gays no México, entrevistamos um especialista

Exclusivo: conversamos com o filho do narcotraficante Pablo Escobar