19 abril, 2016

Sem barreiras

O jornalista Ricardo Gomes, nome forte por trás da Expo Diversidade, conta pra gente como encara o preconceito das empresas na hora de apoiar os eventos gays

Ricardo Gomes 1

Ricardo Gomes, um dos nomes supercool por trás da Expo Diversidade

Em julho, como você já leu aqui, acontece em São Paulo a primeira Expo Diversidade, feira que terá muito além de consumo. Pense em show de Daniela Mercury e até exposição do canadense Patrick Fillion. Por trás dessa empreitada, está Ricardo Gomes, um dos nomes de um quarteto corajoso que ousa inaugurar por aqui um evento escancarado para celebrar a diversidade. Oba!

Faltam apenas três meses, mas Universo AA quis saber de Ricardo, o superdiretor geral do evento, quais são suas impressões quando o assunto é uma grande empresa apoir abertamente a empreitada. “Existe um medo velado de várias empresas que nos declararam que até tem verba disponível, no entanto entendem que não é a hora ou não devem se posicionar publicamente, mesmo que estejam fazendo um trabalho discreto nos bastidores para atrair o consumidor gay e ter acesso ao tão desejado Pink Money”, explica Ricardo pra gente.

E Ricardo tem o que falar: jornalista, ex-editor de moda, promove projetos para jovens designers, e ainda é professor em algumas entidades badaladas. Com tantas atribuições, nem precisava de um novo desafio. Mas quis. “Acredito no potencial do consumidor do universo da diversidade. E que, neste momento de crise, investir no público gay, que como todas as pesquisas indicam, consomem mais que os héteros, pode ser uma boa saída para ampliar as vendas”, explica ele, cujos melhores momentos de nossa entrevista, você confere abaixo.

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Desenho de Patrick Fillion, que ganho exposição na Feira comandada por Ricardo

Qual a importância de termos uma feira segmentada ao público gay?

Precisávamos de uma feira no Brasil que fosse destinada ao consumidor gay, mas que não tivesse a imagem de um evento de gueto. Nosso público alvo é o gay, no entanto queremos, literalmente como é o nome da mostra, uma feira da diversidade.

O Brasil é atrasado nestas questões?

Acredito que nos últimos anos evoluímos muito no tocante às questões gays, no entanto, ainda temos um longo caminho a percorrer. Ainda temos muitas famílias que dizem não ter nenhum preconceito com gays, desde que não sejam do seu núcleo familiar. E nas empresas a mesma coisa: Elas se dizem gay friendly desde que não precisem se posicionar publicamente, isto é, até se posicionam e trabalham o clima interno, mas não se posicionam para seus clientes. Muitas empresas dizem não ter preconceito algum com profissionais homossexuais, mas quando estes saem do armário, suas carreiras praticamente acabam. É por esse motivo que, na prática, muitos não saem do armário dentro de grandes empresas. Quando olhamos do aspecto de posicionamento para seus clientes a situação é ainda mais séria. São muito raras as empresas que o fazem e as que já fizeram algo para se posicionar, muitas vezes recuam.

Há um retrocesso empresarial ou avançamos?

Avançamos sim. Já é possível encontrar empresas que contratam seus funcionários jamais levando em conta a orientação sexual do profissional. Algumas empresas até concedem todos os benefícios aos companheiros, sem que para isto tenham que entrar com processos.

Você sente preconceito velado de empresas?

Certamente. Não de todos, mas de uma boa parte delas. E tem casos que o preconceito não é velado não. É bem categórico. Claro que a grande maioria destas empresas não se posicionam publicamente, mas para nós que estamos comercializando a Expo Diversidade, são claros em dizer que não podem se posicionar frente a este público. Bancos, construtoras, seguradoras, montadoras de veículos, grandes varejistas, marcas esportivas, etc. São exemplos de empresas que, poderiam, mas que se recusam a se posicionar.

Você imaginava que seria mais fácil ou mais difícil seguir este caminho?

Quando o Alex Antunes, que teve a ideia da feira, me procurou para promover a feira juntamente com nossos outros dois sócios Darlan Schmidt e Junior Fortes, tínhamos a exata noção do desafio, pois havíamos pesquisado muito antes de lança-la. Portanto, imaginamos que seria difícil. Temos apoio irrestrito de algumas empresas e entidades, mas está sendo uma grande batalha convencer as grandes empresas a se posicionarem. Um exemplo bem claro, até o momento, nenhuma instituição de ensino, banco, construtora, seguradora e empresa de plano de saúde se interessou em participar do evento, por uma mera questão do medo do posicionamento.

Daniela Mercury, cantora

Daniela Mercury, cantora faz show para o público

Que recado daria às empresas?

Eu ousaria dizer que, tanto as empresas quanto as pessoas precisam se abrir para o respeito à diversidade sexual, racial, religiosa, cultural, musical, etc. Precisamos acordar! Os arranjos familiares mudaram e estão cada dia mais diversos e as empresas precisam saber que o preconceito é inimigo número um do crescimento e o amigo número um da falência. Os gays são clientes dos bancos, compram imóveis, compram carros, fazem seguro de vida, estudam, enfim, eles adorariam que as empresas se comunicassem com eles e que reafirmasse para a sociedade que seus produtos e serviços são para todos e que estão preparadas para atender ao consumidor que num primeiro momento pode parecer diferente de alguma forma, com a maior naturalidade possível.

O que te emociona na Expo Diversidade?

O que emociona a mim e aos meus sócios, desde o início deste projeto, é acreditar que a EXPO Diversidade é uma ferramenta para que o universo da diversidade seja visto e entendido como algo natural. Que as pessoas não escolheram sua orientação sexual, como já provou a ciência, elas nasceram o que são e pronto. A partir desta ideia, só há ganhos.


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