6 abril, 2016

“Não me conformo com a ignorância dos homens em relação ao próprio corpo”

Editor de moda, jornalista dos bons e referência quando o assunto é estilo masculino, Sylvain Justum abre o jogo para UAA sobre vestuário sem gêneros e o papel do gay no mundo fashion

paris-day2-robertspangle-5114_642x390 Poucos são os homens dedicados exclusivamente à moda masculina no Brasil. Sylvain Justum é a grande exceção do País – e das boas. Atualmente, é o todo-poderoso homem fashion da revista GQ Brasil, mas já passou por títulos como Vogue e Harper’s Bazaar, bem como foi braço direito da apresentadora Lilian Pacce. É também um feito raro entre seus pares: edita roupas e escreve com maestria, tudo como consequência natural de sua paixão por estilo. “Foi algo go natural, desde a adolescência. Gostava de revistas de comportamento, de fotografia, sempre gostei de me vestir, era uma preocupação. Acho que uma coisa levou à outra”, explica pra gente que credita seu sucesso a alguma sorte na carreira – além de paciência e perseverança. Sobre sua carreira e a evolução da moda masculina, concedeu a seguinte exclusiva pra gente.

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Por que temos tão poucos profissionais dedicados exclusivamente à moda masculina?

O mercado de moda masculina no Brasil é muito conservador, pequeno, pois os homens não costumam ligar muito para estilo. Uma minoria apenas se importa. É um segmento que movimenta menos cifras do que o feminino. E temos poucos veículos, poucas marcas relevantes, pouca diversidade de estilos. O desafio é pegar o homem pela mão, mostrar que ter estilo vai melhorar a vida dele em vários aspectos, que não é uma bobagem. É um papel didático, mesmo, de catequese. Acho que já evoluímos, vamos continuar evoluindo com a nova geração muito mais antenada e exigente, mas a passos de formiga. Acredito mais em estilo do que em moda. No Brasil.

Evoluímos ou não?

Melhorou, em partes graças à velocidade da informação, das redes sociais, das celebridades, e do movimento de uma nova geração de marcas e consumidores que não se contentam mais só com o arroz e feijão. Ainda temos uma longa estrada pela frente, mas talvez jamais cheguemos aos níveis europeus de interesse em moda e estilo pessoal. É cultural. Lá a coisa faz parte da vida deles desde sempre.

Falando moda sem gênero. É uma novidade mesmo?

É novidade requentada, digamos…rs. A diferença para os anos 1970, da androginia glam rock, por exemplo, é a dimensão e a relação com a sociedade atual. A multiplicidade de gêneros existentes e, sobretudo, a aceitação, fazem com que a moda espelhe isso nas passarelas. Apesar do preconceito que ainda existe, é inegável que evoluímos muito na visibilidade de grupos LGBTs. Os mais jovens vão crescer achando “normal” uma pessoa ser gay, hétero, bi etc. Acho que o movimento gender bender nasce aí, além de ter um conceito comercial por trás. Não vejo a tendência chegar tão cedo às ruas em grande escala, porém. E tudo bem. O importante é que exista, conviva, mesmo que em menor relevância.

Talvez um dia possamos parar de falar em gêneros, certo?

E se um hétero quiser vestir camisas de seda e laços no pescoço, por que não? Acho que gêneros e a sexualidade de cada um deveriam parar de ser um problema e levantar debates. Tenho fé de que um dia vamos achar isso normal e que o estilo de cada um será o mais importante, independente do gênero, da cor do cabelo etc. Ruas de Londres, sabe?

Os gays desempenham um papel importante na moda masculina brasileira? Você acha que eles vão aderir mais facilmente ao sem gênero?

O papel dos gays é sempre importante, mas já foi mais relevante. Nos anos 1990, por exemplo, eles eram a porta de entrada para experimentos, ousadias e novas tendências, mas o que vejo cada vez mais é gay conservador em matéria de estilo. Eles se vestem cada vez mais como os bofes héteros, o que nem sempre tem um resultado bacana. Dito isso, é claro que existe um refinamento natural em certos círculos, além do alto poder de consumo, mas acho que, em matéria de transgressão e inovação, já tivemos dias melhores. Mas se a ideia sem gênero tem alguma chance de emplacar nas ruas, obviamente isso passa pelos gays.

 E, claramente, gay lança tendência ou pode soar caricato tentando isso?

Não acredito mais em tendências, mas em estética, estilo. E isso independe de gênero.

Recentemente, a C&A e a Zara lançaram coleções sem gênero que levantaram muitas críticas. Como você viu essas coleções? É possível que seja um primeiro passo na adaptação do estilo dessas marcas?

Foi uma solução fast fashion de ver a coisa, né? Talvez mais uma maneira de introduzir o assunto do que entregar peças relevantes. Não vejo, por exemplo, a estética atual da Gucci indo parar nas araras masculinas da Zara ou da C&A. Ainda. Um dia quem sabe.

Qual a melhor coleção para quem quer ser atrevido?

Gucci. Mas precisa querer ser bem atrevido!

Em que o homem brasileiro mais peca na hora de se vestir?

Tamanhos, proporções e silhueta. Não me conformo com a ignorância dos homens com o seu próprio corpo. Eles não têm noção de como fazer para valorizá-lo. E os tamanhos! Incrível como eles não são capazes de saber qual o tamanho correto da roupa deles. Experimentem perguntar o tamanho do costume de um homem “normal”.

O que um homem não pode ter no armário de jeito nenhum?

Só de ouvir a palavra sapatênis já me dá urticária.

O que um homem deve ter no armário?

Clássicos versáteis, que atravessam estações e resolvem a vida em qualquer situação. Camisas brancas, calças pretas de alfaiataria, tricôs lisos azul-marinho, por exemplo. E bons calçados. Eles dizem muito sobre um homem de estilo.

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O que é preciso para um homem ser elegante?

Elegância é algo quase natural, que não se compra nas grifes de luxo. Acho que está mais no comportamento, no gestual e na personalidade do que nas roupas. Mas claro que um banho de loja às vezes ajuda. E é possível ser elegante gastando muito pouco.

Quais seus estilistas preferidos e por que? E como poderíamos aprender com eles?

Raf Simons, Alber Elbaz e Yves Saint Laurent. São românticos, intelectuais da moda e mestres em construir uma elegância sem esforço, sem pirotecnias. O recado que fica é: keep it simple.


 

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